Tridimensionalidade

A tridimensionalidade desta moldura

de noite iluminada por sons mecanicos

de âmbar e estrume em que os ramos

corcundas murcham em virilidade e verdura

ficou gravada no céu de Outono nublado de Inverno.

Veste-se, mutável, este canal

apunhalado na crosta urbana, intruso generoso,

de trapos que reconheço, agora, no temporal

de trocas e transfusões que filtram e soltam o fruto do caroço.

Reconheço a sombra do que foi

nas árvores do meu corpo

sobre quais paisagens exalo

a fumaça do frio inóspito,

sugando-lhe hoje o vício,

quando antes o destruí

numa antepassada estação ou porto.

Em matizes se incendeiam, da cor que lhes trago

das ordens e rotações que não comando

ao rubro dum vermelho em piruetas de desolação

nas madrugadas tardias manchadas de fim,

frustradas pelo bolor restante e verdejante

duma alma que volta a ser, salva,

despida,

como estão as raízes sinuosas e serpentes ramos

da sombra da moldura do ciclo.

Transplanto os seios de refúgio

em que nos espraiámos como parafusos

denunciando a pena capital do meu descontentamento

pelos desnutridos lençóis que pouco me cobrem

da boca árida do relento,

reverberando a espuma da corrente perene dos vivos,

traduzida, então, em prismas de férteis rebentos,

guias numa moldura do meu corpo carnívoro,

entr’estes pólos vivos invertidos,

ando desabrigado.

Vestido também de Morte

em novo ventre me verto,

repouso no coração.

GJ

Restos

um e outro, pés

um, outro,

relembrar como funciona tudo

neste brinquedo estragado,

o meu corpo.

pé ante pé, coreografo

passos impróprios.

há desafios incertos,

não há espaço ou segurança

ou espaço seguro,

pondo um ante outro,

haja astúcia, prudência.

andámos, hesitaremos,

ainda saltamos rumo

à facilidade do esquecer.

gemidos indevidos memorandos irresolúveis.

segue então a parada rápida,

perplexo com facilidades suspeitas

de compassos binários.

deixo o que quiser,

arrasto o que trouxer.

uma dança de acrobacias

irreflectidas, passadas longas,

exuberantes demonstrações

de pouco alento.

um passo rodado, dançado

na crista quadriculada,

cedo alargada e engulo

o espaço, com minhas

dimensões monstruosas.

II

para dizer, num gesto,

que rasguei uma quadricula

para nela velejar ou navegar no carril

da exponêncial ébria meditação,

os candidos sons projectados no vidro baço

pelo meu traço bom, fiável,

ruga que estimo por sorrisos eternos.

um gesto

um beijar suave,

mas seguro.

III

em cercas mais altas

balança-me o silêncio.

aquilo abaixo do queixo

lá festeja em doces romarias,

feio e porco.

ser ou não um pouco do sono

prolongado, agora de contas finitas,

não me traz prejuízo.

tenho sono à noite, dançando os meus dias.

GJ

Ad libs

   Acredito que tudo é, por natureza e por defeito, desequilibrado. A falta de equilíbrio resolve-se com outros pesos, para cada limiar de desequilibrio há um elemento que pode contrabalançar os efeitos nefastos da deficiência raquítica do ser.

  Receita-se uma valente dose de bravura ao pensador da lógica fria e problematizante que se encontra apaixonado. Aconselha-se ao mais acelerado, ansioso e drasticamente romântico dos corações uma viagem pela noite fria da introspecção e calma. No entanto, pergunto-me qual o propósito de todo este contrabalanço? Se se é o que se é, e Ser é experiência, então não há existência menor que a experiência e cada um será o que é, simplesmente.

  Um mundo cheio de sobreviventes esplendorosos que fomos destruindo  sem nunca realmente ver os cantos à casa, sem nunca realmente tocar os que existem connosco e que aniquilamos, e, de alguma forma, só vivemos para o olhar do próximo. Uns mais resguardados de tudo, outros mais arfantes pelo calor do vizinho, mas todos querem o mais cobiçado, raro e vão dos bens, todos querem um coração, com amor. Um coração com amor pode já vir quebrado, pode não reparar um partido, pode não ser suficiente, pode elevar a consciência a novos patamares da existência mais amáveis, amorosos e globalmente estáveis.

  Acho que se resume a auto-preservação, para que as nossas deficiências não nos deformem. Corrige-se o instável e a bola de neve continua, no eixo em que giramos, num jogo de influências em que nos encontramos, não ao acaso, mas porque chegamos a um ponto de encontro.

GJ