Amante

         Quantas palavras amorosas não se fizeram e desfizeram em anéis de fumo?

         Nenhum sadomasoquismo se compara, nem em regras, nem em índole, à doce mistura de prazer e terror que é rasgar os músculos  dos nossos corações que bombeiam sangue, paraísos e monstros, para dar lugar à voluntária intrusão da razão, amando de corpo e alma.

          A solidão não me desfaz, nem desfez, nem me trouxe de volta o que destruí cheio de vontade.

        Palavras nada dizem. Falo de mim para todos os corações que com as minhas entranhas queiram colidir e desfrutar idoneamente do meu tempo, adormecer comigo e viver em mim, em liberdade. Tenho abrigo.

          As doces palavras que disse, libertei-as, para que criassem a melhor das realidades. Desfizeram-se, sem destino.

Que ninguém fique. Que ninguém seja destino. Que ninguém se atreva. Porque eu nada espero.

O tempo não espera. Eu também não.

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O último suspirou por tantos mais e,

do outro lado do templo-moinho

sentei-me, bafejando mais e mais

fumo contemplativo,

à medida que a lua se destapava, astral,

fitando-me para lá das nuvens.

Espantei a nostalgia, manco e inebriado,

sentindo-me em casa no meio da rua,

enquanto os gatos vadios faziam amor

soar como guerra.

GJ

in retro

     Tenho sabido, sem perguntar o que sustentava tanta certeza. A resignação iludiu-me de sabedoria e preencheu-me de despreocupação, contentamento. Alguma altivez na ignorância me carregou nos anos de adormecida consciência, até ao ponto de arriscar permanecer indulgente, jovial e arrogante.

    Não houve trono, não houve razão. Houve, sim, resignação. Não perguntar mais, nem sobre tudo, nem sobre tudo, nem sobre mim. Cessada a vontade de questionar, a alma apodrece no limbo, entre o que podia ser e o que não é. O que não é, poderá vir a ser, se for encontrada a aspiração, se for confirmada a questão maior e difusa, na minha mente feita a priori e acamada na dúvida, se houver resposta a uma pergunta insistente. Na inércia de ser, nada se é.

linguas com ideias sem palavras
linguas com ideias sem palavras

GJ

Hoje

       O silêncio hoje incomoda-me. Estou ciente das minhas vontades, sem saber o que com elas fazer. Não só por serem ambições pouco gratificantes, mas também por serem pouco exequíveis a tempo inteiro. Embora seja a vontade de alcançar algum feito nesta arte de escrever, ou de dar uma fantástica sensação de novidade a meros memoirs com cores, e a  verdadeira emoção de homem de palavras, não há ainda a substância que me possa levar a ser a verdadeira voz de mestria. Não reside em mim e impede-me de fazer o que me projecto, na minha grande ideia de auto-realização.

       Suponho que me possam dizer o que fazer com a minha vida, que me dêem indicações de como encenar a minha vida convincentemente, convenientemente e coniventemente, embora a minha vontade seja de me superar e escrever geniais retratos duma vida que não pertence a mais ninguém, nem mesmo a mim. Poderia, no entanto, cultivar-me já e saciar-me no Inverno de agora, preguiçoso, de alento e satisfação. Isto não cabe dentro dum emprego nada generoso, ora porque sou de perguntar e procurar para instruir outras aventuras, ora porque aceder aos pedidos mecanizados de outros nada me traz senão um insuperável sentimento de desperdício e de submissão a estas exigências do mundo expiatório em que já mal se vive, e muito menos de sobrevive.

       Não estou disposto a viver em pobreza, muito menos aliado à miséria de hoje, mas a profusa descontinuidade de quem sou hoje, incapaz e repartido, deixa-me duas alternativas: continuar à procura e render-me ao mundo fora das vãs manifestações de ego, ou aceitar que faça o que fizer para estar conforme e conquistar algo, tudo dá no mesmo, não há fontes melhores, é só o que há e um dia acaba. Correndo o risco de influenciar alguém com a minha desilusão, desiludir os planos e frustrar quem acredita, detesto ceder ao declínio da fé no maior dos sonhos, à decadência do parar das engrenagens, de fazer e conquistar. O meu nome, a minha imagem, a minha voz, vão ser lembrados pelos que comigo vivem em comunhão, esses também tão mortais quanto eu. Lembro-os de que a vida não é bem vivida, em pleno rigor de sermos privilegiados com tamanha simplicidade de ser e construir o que é vital e descobrir, sem pressões pessoais ou monetárias, aquilo que queremos saber, mostrar e tanto alcançar. Vendemos a nossa vida a fazer o que a humanidade pensou para nós. Trabalho, família, coisas, comida, cobiça, amores confinados ao alívio de não estar só. Javardamos nisto tudo como se amanhã pudéssemos conquistar tudo, ou perder tudo.

       Se me resguardo de tantas oportunidades de ser contente, o que sou, aqui?

Sinto tanto por nada fazer, nada ter, nada ser, por me parecer um passivo moralista com mais por dizer, sem encontrar ainda as amarras para enlaçar, atirar e prender ao pilar do próximo cais.

GJ

Queimo eucaliptos

Venho-me no reflexo do meu sexo no fumo,

a ouvir os sons guturais descompensados que toco,

a tocar-me, a foder-me em primeiro plano,

no seio da partilha grotescamente exuberante.

Venho-me da merda espalhada e da magia espirrada

trazidas da imunda tesão que desenrolo em ondas,

ininterruptamente, queimando os segundos

que contam o infinito tempo que dispenso

para enaltecer a condição nuclear intrínseca.

Venho-me apenas da perfídia,

porque os cheiros deste corpo passam fome a pilhar

entranhas e a sugar demónios que decoram os caprichos

abertamente obscuros da libertinagem que crescem comigo.

Meramente carnal, invadido por toques de luxúria

e outras modas complementares, fodo-me.

Como o mar, como o meu sangue, como o que é meu, inesgotável,

dou-me prazer e arranco o prazer consensual e exponencial,

alimento a minha faminta imaginação,

fecundo-me e crio a minha linhagem movida a transgressões perversas,

excepcionais, apenas a meu mando.

GJ