Bastardos

Então és poeta!
Mas nunca te li,
sei de ti pelas bocas
que aí andam enganadas
dizendo tuas façanhas.
Onde te vendes?
Quanto te devo?
Vou falar de ti,
dizer que te conheço.
Meter o cunho,
dar o teu endereço.
Faz-me odes à medida,
para te matar e te vender,
que eu sou teu berço,
tua partida,
tua alma em mim orfã perdida.

 

GJ

Aretê

Pode não extravasar
o reduto vazo
este rebento tenro.
Espólio híbrido à sombra

doutra mãe farta,
doutro pai terno,
adorador do vento raso.

Quer-se transplantar,
cresceu alto e maior,
da sombra pró calor.

Carrego-o com vagar
para o teu patamar
acima das flores,

o fruto singular
de perfeitos amores.

GJ

Profecia de Nova-Sodoma

Quero enrolar todas as estradas em tapetes,
deixá-los rolar pelos trilhos,
poder marchar indígena pela terra.
Quero raspar todas estas urbes e cidadelas,
levar coches estacionados para o desterro,
desterrar todos os demais de volta à caverna.


Vou ver o diabo enfermo de novo em chamas,
livre da tirania de a todos foder de quatro, inertes,
nós, bichos, acamados na lama.


Vem comigo, Mundo,
Que eu morro rapidamente amanhã,
Como patriota com a honrada missão de te matar.

GJ

Homem ao Mar

Vamos, vamos morrer.

Podemos morrer de velhos.

De costas para os mortos

ceifando nossas colheitas,

recolhendo no regaço a fruta,

sentar à beira-mar comendo

caça e pesca,

chupando lânguidos diospiros,

roendo raças de azeitonas,

mordendo o pão dos famintos,

com os pés de molho, vendo,

que chegou a hora de morrer.

Sai do abraço da fronteira,

faz-nos o enterro, carrega-nos.

Põe-te em teus terrenos pés lavradores,

vamos embora,

legar a encosta aos perdidos.

Não me deixes a encontrar-te

que eu só aprendi-me

e sei da minha saudade.

Não há identidade acima do nosso valor,

não tens idade,

podes morrer.

Vamos! Já! Vem em espumantes rebentações,

escorrendo do teu corpo de volúpia

pelos cabelos e seios de estátua,

navegar de mãos dadas pela água

tecendo as fibras do mesmo Fado das tuas núpcias.

Recolhe o teu berço e o teu amor,

içamos âncora e comemos as ondas,

na barcarola das tuas alvas edificações.

Esse fulgor da Justiça do Terreiro na proa

avista para lá do zénite dum Platão, Dante ou Antero.

Navega-nos para lá da tua costa-prisão,

espraia-te no espelho da cidade dos céus.

Tu, que levas a tua gente imersa no teu olhar,

rema-nos ao teu altar,

banha-te na bonança da morte que é enfim provar

do Quinto Império as tuas raízes de herói,

alma de pagão, homem ao Mar.

Portugal, salva-me, vamos morrer.

GJ