Estrela da Manhã

Dezembro traz mais do que frio e memórias. Dezembro traz-me a memória do teu calor. Dezembro traz de volta o que Janeiro deitou fora. Tenho percorrido com os dedos os caminhos do teu corpo suspensos no ar, contornos onde a poeira assentou. Então, tenho percorrido as mesmas lembranças, mas falta a tua cara. Não me lembro da tua cara. Dezembro tra-la-á de volta.

Pelas ruas só se vê pressa, o ar foge entre os carros, os carris, entre as pernas e os gritos. O ar assobiado pela pressa assalta Lisboa, que exaspera o sentimento rápido, a pressa de chegar a madrugada, a pressa de deixar de sentir, a pressa de adormecer. Com todo este barulho à minha volta, no meio do caos, eu só espero por te poder levar a voar. Num só fôlego poder soprar-nos até ao espaço, na combustão da vontade com que te quero a derreter como rochas na tua lava, soprar-nos para longe, desafiando a gravidade, perfurando a opressão do ar pesado, em câmara lenta, derretendo. Quero morar no espaço, onde as estrelas não são estrelas mas monstros como nós. Quero lá nascer de novo sem saber quem fomos e o que fizemos. Quero lá conhecer apenas a calma de existir e os teus encantos de lava no seio do mais inóspito frio.

Até te trazer de volta, o tempo que destrói a minha fé, conta até zero para poder descolar. Enquanto isso cai mais uma hora sem pressa, e todas as horas representam nada, porque, quando chegares seremos a luz que falta em Dezembro.

GJ

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