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Entro nas memórias vívidas que se desenterram sozinhas, dum passado cálido e distante como um sonho, da infância como lugar único que vivi em despudor e despreocupação, e memórias que me são inacessíveis, encobertas por finais alternativos recriados pela perturbação que causam ao íntegro presente. Há um lado fabuloso nos dias que vivo, que sorriem, quando distraído em pensamentos e regressões, que afogam o olhar, quando ressaltam os pensamentos proibidos, em que vejo, balbucio e escuto o mal, assaltado por repressões, transgressões e limites, fios de navalha, memórias vivas fora do corpo, corpo vazio e bobo, corpo rubro e alma morta.

Anseio dirigir-me palavras de amigo, destapando os anos que me esqueci de ter vivido, inundar a lacuna, a vala dos defuntos actos legítimos e irascíveis, para me devolver a clareza da visão, para me trazer a união do todo que tenho vindo a planear e a arrumar em inventários selectos da minha mente pouco afectada, definhada, a fronte da minha paixão ardente que foi incendiada por derrames contínuos do combustível que há muito da fonte havia parado de jorrar. Anseio poder ser o todo que me coloca no invejado lugar daquele que se conhece e se aceita. Anseio não temer… e, no entanto, quando me sinto bravo, é a ânsia me faz tremer.

Há muito que me ecoa a visão clarividente que me garante que morrerei em breve. Só sei que poderei morrer quando me torno uma perda. Como poderia ser uma perda sem ser de alguém pertença? E se alguém me tem, a alguém me terei dado. Quem me pudesse perder, sofreria algo como uma perda. Não temo a morte, pelo que tal pânico é extra irracional, dentro da racionalidade que estimo e tão bem cuido para compreender os caprichos dos meus medos, fixados em solos arenosos. Temo e inundam-me os olhos de melancolia a perda de quem sou aos olhos de quem me tem, que me poderá perder para a rigidez rigorosa, sem ter sido lido, sem me ter aberto, sem ter lido aos donos do meu afoito coração de criança desconfiada crescida os mandamentos do real inquieto desnutrido, desiludido, alienado, adormecido. A fábula é a mais extensa, infindável peça que ainda não tive o atrevimento de deixar a meio. E que mentiroso eu sou.

E que mentiroso eu sou.

A mentira que me atrevo a reconhecer é a nova farsa que crio para esconder a verdade do que julgo entorpecer pela reprovação. A mentira é a verdade e a verdade a ternura, a compaixão da mentira… e há uma lava que se verte pela lava extinta, o vulcão que me cava de novo o peito pela alegria que tenho em me ver desfeito das minhas teias de controlador do universo. A minha liberdade só chega quando sou detido. Preciso da prisão para ser livre. Preciso de não ser, para ser livre. Continuarei livre de amarras para me prender a uma única expressão: a do caos unificador que me faz anémico e tranquilo para os donos do afoito coração de criança desconfiada desiludida, ardida.

E que amoroso sou eu. Quem em amores desmesurados me quero derreter eu. Derreter em lava e perdição, derreto-me, eu.

Apaga-me e desunha-me, deixa as crostas para nunca mais ver a ferida.

GJ

contemplando

Lilith

Lilith de Gonçalo Julião

Cresce-me a luz da dúvida na fronte. Mal me toca a carícia da intuição, que cego me fiz, dançando valsas e cortejos só, à confiança dos sentidos, de olhos fechados, com o fantasma do meu agora reencarnado desânimo. Cresce-me a necessidade de usar palavras. Palavras que silenciara e trocara por adornos de realeza perfurando a pele macia, quente, fugaz, violeta. Palavras trocadas que cimentaram bases de paz. Cresce-me o impulso, empunho suspeitas prontas para me flagelar, suspeitando do meu objecto e da minha suspeita, vocifero as hipóteses que tecem as três bruxas da minha introspecção, que me fazem companhia, alienação, solidão, mania. Afogo-me em retratações, entre cláusulas que assumo para comigo com rigores e temores.

Cresce-me na fronte a sombra da perda, sobre os olhos que procuraram com ambição e não folhearam os capítulos soprados pelo vento pestanejado pela rapidez vigarista de olhos desassossegados. As palavras voam no silêncio de segundos, no desmaio da minha crença. Alço a batuta, em repetido alívio e flagelo, sangro, soo o alarme do descontentamento, largo os uivos da suspeita que me desenlaçaram do sacrifício do orgulho, do suicídio do medo. Findo-me com as palavras que te convocam, que te acusam para me justificar tão inquieto, tão incerto.

Digo apenas que amarias o meu corpo conforme dizes de tua vontade, não amando, amarás outros na rebentação, que és volátil impressionável Vénus e serei eu ardido Vulcano, trabalhando o aço azulíneo para te desbravar as amarras do egoísmo ácido que atiras sobre o meu peito descoberto.

Atravessa-me a fronte, eclipsando a manhã da razão, uma Lilith maligna que me destrona do bom julgamento, em velhas lembranças, na velha cegueira impotente, de amarguras imprevistas. Cumprindo-se o presságio adiantado pela melancolia, farei minhas as lágrimas seguradas de Adriano, pelo fúnebre brilho que se abate no meu olhar afogado pela perda do teu níveo frescor.

GJ

Swinging in Space

intheskywithdiamonds

She is drifting on water
She conceals
all a girl can feel
in recklessness and poise
the boys and the praise
her and the boys
in a haze
of false pretenses

when she walks on water
she’s herself without her name
when she walks on water
she blows her flame

she wants the truth
she can’t handle

she’s contending love

– song lyric project

GJ

Hyper Idiot love letter

cover

I’d pour my heart and guts out, in squishing blood fountains and corrodent bile, wearing the most truththful transparent smile, for the life I can endure and go on balancing both evils of happiness and growing pains. Without aid, without crutches, leaning towards eachother and finding new and warmthest dephts to swim freely while drowned in cheer devotion. I’d do all that until my heart stops, just to have yours truly unwound, unravelled and bathed into our quiet day underwater. That’s how I’d spend eternity, within our bubble lying by your side, sinking my teeth in your flesh, letting you know how you came to feed this reality I find ourselves shining at last and at long last together.

If you ever doubted it, every instant is lived and consumed by this wave of devotion I’ve allowed to drive me out of the world into your shore. So, let’s not go with the tide, it’s so tedious. Let’s go and comeback. May we dive and share our one time breath each time and resurface, until we’ve consumed our bodies, until we’re old found souls.

Yours truly an idiot

Um Blogue Idiota: a poesia em livro.

Eis o que se tem passado:

Recentemente fez-se uma selecção de poemas publicados neste blog e outros inéditos e editou-se em livro. É isto, muito sucintamente. Nada de complicado, até. Achei que era uma boa altura para arriscar e avancei com a edição. Entre novos trabalhos, novas parcerias, novos projectos em literatura e em imagem, convites para participar em aulas de literatura sobre alguns dos poemas publicados, pouco desenvolvimento aqui foi introduzido. Veio tudo em boa altura e tudo propiciou a novidade que é para mim ter desenvolvido esta publicação do pequeno e ilustrado livro com o título “DesRazão”. Tal conceito é tanto o título do livro como o nome do que faço.

DESRAZÃO

Foi este o resultado de capa e o livro estará disponível para quem o quiser. Também aqui encontram alguma da poesia contida no livro, para a ler não precisam de adquiri-lo. Vem ainda com ilustrações feitas para alguns poemas.

sereno Estoico homemaomar

A versão a p&b para o livro: https://www.behance.net/gallery/21447219/On-Unreason-rethinking-the-Rorschach-B-W

A versão a cores: https://www.behance.net/gallery/21447509/Rethinking-the-Rorschach-Psychedelically

GJ