Rígel

Rígel de Gonçalo Julião

‘Respira fundo, pelo nariz, enche o ar de pulmões, expande a caixa torácica, prende o ar lá dentro’ – ouço as reticências dela a marcar o tempo, a cadência da inspiração retida e da exalação soprada – ‘e solta agora o ar pela boca, com força’ – ordenou-me, com a mão no meu peito, esvaziando-o como um balão deitado no colchão d’água. É como flutuar, é como tapar-me com cimento, como enterrar-me num sono consciente. Inalei fundo toda a tranquilidade que não conheço. Exalei toda a desarmonia e desordem. Algures na transfusão pausada e cadenciada, na suspensão encontrei yin e na roda viva yang.

‘Concentra-te na minha voz’, lembrou-me, ‘Vou iniciar a contagem decrescente de dez a zero. A cada número, descerás um degrau. Olha à tua volta, vê onde estás. Vês as tuas escadas? Já aí estiveste’. As escadas eram, de facto as mesmas. O mesmo corredor sombrio e limpo, cujas paredes que encolhiam em ângulo agudo para as escadas amarelavam e gretavam, apenas iluminado à minha passagem, à falta de tochas, candeias ou algo tão banal como electricidade. Ao virar o corredor em caracol para as escadas encontro o mesmo brilho azul e difuso, gelo e neve e luar. É por aqui que desço mais e mais para o meu abismo. ‘Dez’, e desço o degrau. Não se sente nada, o gelo é gelo e o túnel forma-se. ‘Nove’, e desço outro degrau. Andei uma vez numa montanha russa na grande feira popular de Viena, onde as carruagens entravam num túnel estreito, a luz apenas mostrava a boca da serpente, para dentro só escuridão. ‘Oito’, desço outro degrau, desta vez com receio de escorregar. ‘Sete’, desço. A imaginação é algo poderoso. Aqui estou eu, representação de mim mesmo no meu subconsciente, nu. ‘Seis’, com um pé ainda no degrau anterior. Estou nu a descer escadas com degraus contados. Arquitectei bem a minha toca, tudo arrumado e funcional. ‘Cinco’, ainda que permaneça uma divisão mórbida da minha consciência, encanta-me. Desço. ‘Quatro’, desço com receio de me esquecer de descer. Mesmo agora ao molesto-me por me permitir trazer medo para casa. Depressa acabo com a pestilência do medo no meu santuário fortificado, onde não há escutas nem privação, apenas segurança e mundivivência. Poder ultrapassar limites de visão e alcance. Perscrutar o universo, projectando-me além da atmosfera e abaixo de mim mesmo. ‘Um’, merda! Três, dois, um, desço. Enquanto desço perco as escadas e caio hirto numa espiral cósmica, translúcida, líquida, clara de ovo e leite diluídos em água e ondas neónicas, boreais e sol.

‘Concentra-te na minha voz, guiar-te-ei’, olhei para cima enquanto caía, olhei para baixo tentando perceber onde ia cair. Ouço-a, estou cá e lá, mas noutro sítio. Querendo, viajei mais além das indicações dela. Escorreguei para os olhos de uma baleia, que me mostravam constelações e mais escuridão do que alguma vez conheci. Um vazio avassalador que reanimou o meu corpo cósmico, sem mãos nem pés, apenas veias e terminais luminosos, sem carne, apenas plasma, um ovo, um embrião na teta que tudo o que existe alimenta. De onde venho ninguém tem lar e no frio onde moram os diamantes do céu terrestre encontro o remédio para a minha amargura de filho abandonado. A esfera é feita de um tecido macio, quente, vivo. Um hemisfério sólido, branco, outro invisível, revelador de uma noite onírica. De dentro surgem figuras sem corpo ou membro, ligadas ao navio, brancas, com os mais profundos olhos negros, duas bolhas negras onde cabem os olhos dos humanos. Quem são? Acariciam-me com ondas de calor, com carinho e saudade e consigo aceder a tantos segredos nos olhos que entram nos meus, consigo intuir a missão que me foi entregue sem consentimento ou permissão. Sou, de um só golpe sem piedade, abortado para fora da nave, caído numa realidade vermelha caótica, de destruição e medo. ‘Não permitirei medo’, penso, emboscado por ventos solares que me elevam e se alojam em frequências nucleares irrequietas, emitindo faixas de luz pelo meu corpo de plasma, ensopando as ramificações que tomo por membros de nano estrelas.

Sou violado pela luz mais dolorosa e justa, elevando-me na atmosfera bélica que vim para derrubar e domar. Na inexistência de som, sentia-me a gritar lamurias de super novas, enquanto sorvo pela boca toda a matéria. Expludo luz de todos os terminais, desfazendo-me em poeiras que reflectem o universo. Irradio explosões de luz em mantos que cobrem a realidade que fui enviado para extinguir. A luz roça os astros circundantes, a luz que sempre trouxe e que se uniu ao concílio dos astros para banir o medo e a miséria. Assim nasci, memória da vitória sobre os limites. Luzindo mais bravo e completo, terminado. Rígel.

GJ