Draft

I could not see the vast difference, in appearance, between the surface below me, and the surface 
of my mother earth. 
The latter was indeed 
over my head, and completely hidden by the balloon, while the moon 
— the moon itself in all its glory — lay beneath me, and at my feet.


in The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall, E.A.Poe

Com certeza, tal como todo o resto desta nossa pequena cidadela, viesteis ao meu encontro para saber mais detalhes sobre a minha extenuante aventura e sobre o meu regresso… pois, sentem-se, cavalheiros, estava a contar recebe-los assim que voltei a pisar o chão de minha casa. Quereis saber o que é feito das vossas queridas filhas… não há muito para contar, devem compreender; a morte que sofreram foi de tal maneira ágil no corte que, deus as abençoe, não deram pela falta das cabeças… Eu tenho (pausa), tinha um avião que me foi ofertado por sua senhoria o Barão do Oeste que mo trouxe carregado das mais negras uvas. Era uma nave peculiar, guiava-se sem requerer a minha atenção, consumia apenas mosto, albergava, sem sombra de dúvida, cinquenta pessoas, embora eu, que sou sozinho, gozasse  bastante bem as minhas férias longe das bocas das velhas de Catrião. A sua filha Alice, Noveno, conhecia-a desde que éramos dois poltros enfezados, toda a nossa vida brincámos no pátio desta casa, e teria tentado protegê-la, não tivesse ela tentado apunhalar-me e entregar-me ao inimigo que ainda se alimenta dos restos mortais das raparigas.

Embarcámos na minha nave a 1 de Outubro, numa esplêndida manhã pelo fresco da aurora, rumo a Noroeste de Catã. Como sabem, cavalheiros, a velha aldeia de Catamor está deserta, nesta altura do ano, e todos concordámos que beneficiaríamos do silêncio e privacidade. Voámos eu, Alice, Nesca, Tabara, Pelão e Bantila.

para continuar…

GJ

Porque me sinto zangado pt II

A pergunta persiste.

Pergunto-me a mim mesmo, perguntam-me outros ao través dos anos, e eu resisto e engulo a resposta, porque a idade era tenra e o tempo da liberdade ainda não era. A resposta, a explicação da minha zanga esquizofrénica, que ora é, ora se esquece de ser, é o trauma da esperança e do sonho, o desejo de concretizar ideais, a promessa que fiz a mim mesmo de tudo da minha mente construir e criar. Mas que os meus pares me passem ao lado e sejam jamais, e se esqueçam de novo de perguntar, porque os ignoro hoje se ontem os quis revisitar. Mete-me nojo visitar-vos, ver-vos de um passado que não floresceu, quando a minha dolorosa e inevitável missão ao través dos anos é ser eu.

Pergunta-me hoje porque estou tão zangado assim, deixa-me ter espaço e tempo para responder e entre tudo o que os meus pés e punhos podem partir e em pedaços explicativos ajudar a minha a desenrolar, dir-te-ei com a mágoa de deuses fora do devido altar que à flor da pele a natureza me fere de urgência de ser livre – E EU AINDA NÃO SOU LIVRE – que todo eu sou cansaço, que da mediocridade sinto o peso do tempo, o peso do tempo atrasado, irreparável inércia que me rói os dentes, obstrui e constrange as válvulas, a culpa da fraqueza piora a dor de cabeça, e a raiva animal, viral, lança-me ao ataque, à sabotagem de tudo o que representa futuro, e de tudo isto resta-me zanga, mágoa e raiva. Fazer para quê? O quê? Em troco de quê? Por quem e porquê? Com que garantia do bem estar da minha sanidade? Com que posses? Por que cedência? Resta-me sair ao mundo todos os dias a realizar a minha missão e ser rodeado de apoiantes, que levam o que gostam de ver, e regresso eu sozinho, ainda a ser o que sou e mais não me consigo suportar, a minha mágoa, a minha zanga, a minha raiva. Zangado, silvos de medo, encolhido a um canto, solto estes avisos para que tenhas precaução: não sou o que tenho de ser e sou um acumular daquilo que nunca quis ser. De mim não vejo mais maravilhas, de mim não espero mais sonho, de mim apenas tenho fuga, reclusão, solidão, inércia, caluda e falta de sono.

Correram os anos e mantive o meu olhar certeiro na estrada contínua. Omito aqui os tropeções, os achados e outras recordações, a estrada é longa e longa deveria continuar a ser até chegar onde quisesse, porém a estrada acabou precocemente e a meio a minha música ficou. Como poderia eu continuar a alimentar o boato da minha loucura? Observa, vê que a minha revolta não pode ser menor nem silenciosa, como retomo a minha gritaria! O som abandonou-me e eu faço melodias e ritmos contra uma parede que não consigo escalar, para incomodar quem me ouve, até fazer o cimento estalar. Perdidas estão as cornetas que abalaram as muralhas de Jericó e perdida está a doença do coração deste homem que antes, consumido pela esperança, pensou poder existir, porém agora, livre do veneno, se indigna com o a priori que lhe diz que só pode ser… É o meu único luxo .

GJ

– editado, 14/08/2016

A conversa da poesia e do amor e o que o amor tem a ver com isso

Quero começar por contar uma recordação de infância em que, chegando de carro com os meus pais à cidade de Beja, tinha eu cinco ou seis anos, ainda mal era primavera e o sol batia nas casas caiadas do bairro dos meus avós paternos reluzindo e cansando os nossos olhos, na rádio passavam cantares alentejanos mas naquele momento, entrando pelo mercado de Domingo que ali decorria, escutávamos uma guitarra portuguesa solene. Lembro-me disto, de estar empoleirado entre os bancos da frente do carro para ver por onde passávamos, inquieto por estar há tantas horas no carro, ansioso por voltar, olhava para as velhas todas à procura de um rosto familiar, talvez visse o da vizinha Joana que me fazia sempre uma festa quando íamos lá, dava-me sempre dinheiro, doces e beijinhos. Era uma velhota com muito amor para dar, sozinha e as crianças não gostavam dela. Eu gostava de a fazer sorrir, passava mais tempo com ela do que com a minha avó paterna. A outra ficava chateada e tentava comprar-me com falinhas mansas, embora já eu soubesse que, para tirar o máximo proveito de toda a gente, teria de conceder alguma da minha atenção e do meu tempo a todos, até mesmo aqueles que simplesmente me eram indiferentes.

Trago esta memória para reviver o som, a luz, a vivacidade, a simplicidade, a alegria de voltar a um lugar tão querido, e provo com língua o sabor desta candura em doces gotas uma emoção, uma combustão primária para dar andamento ao pensamento e resvalar num quedo leito suspenso de faminta amorosidade. Este sopro amoroso sibila-me nos ouvidos e pressiona-me as entranhas, ordenha-me o prazer, tonto e faminto intentaria o desejo, inspirando, por sua vez, o aroma vaporoso e salúbre do meu amor sob leve lume.

Assim me deixo ao sabor das palavras e construo, sabor sobre sabor, pedaços de realidade sobre pedaços de romance, memórias sobre desejos, ideias sobre sonhos, dando lugar à poesia que nasce de algo forte e se forma por entre o vapor dessa poção num poema em bruto, forma-se e transforma-se entre cogitações da mente e regurgitações do goto.

Vosso

GJ

Porque me sinto zangado

Atenção! Pessoas zangadas agem tal e qual feras que rosnam a qualquer aproximação. Ou detectam cheiros suspeitos, têm unhas encravadas, feridas ou algo interfere com o meio ambiente que domina. A minha zanga e raiva constantes prendem-se na incerteza que são os dias, no resvalar da minha capacidade de me manter centrado, na minha descuidada sanidade, na culpa de, por não poder voltar onde estava soberano e invicto, não saber bem como lá chegar, é esta voz de sobrevivência que não quero ouvir, a medíocre meia-pessoa que se dobrou perante a adversidade e o falhanço. Estou zangado comigo mesmo por duvidar conseguir manter limpo, prístino e divinal, assim como veio a ser, um amor que sem saber no instante em que brilhou me livrou das metáforas, eufemismos, esperança amarras demoníacas sob as quais me encontrava subjugado. É neste fenómeno que conheço a minha grandeza e acredito, bem como passei a acreditar na bondade, generosidade com sacrifício, reciprocidade e evolução. Acabaram-se as trevas da esperança porque tudo pode acontecer fora dela. Apenas a acção conta, quanto mais faço mais acontece. Quanto mais faço a inspiração deste amor, mais aconteço. Não faço magia acontecer, não trago de volta à vida quem me faz falta, não nos torno imortais, nada sobrenatural faço, embora, tenha almejado e agora alcance a resposta ao porquê de tanto questionar até questionar a existência. Quero ver tudo o que houver para ver no futuro que antecede morte. Quero ver as minhas previsões incorrectas e ver um novo e feliz final. Até lá o meu tempo é o presente, este minuto em que remato com o tema desta composição: é este o meu tempo e é nele em que me encontro espremido pela incerteza e inúmeros factores deixados ao acaso, onde me resta esperar que a barreira invisível das proibições do mundo, das vontades públicas, das emoções alheias, da minha pressa para voltar a ser intacto e intrépido, é neste tempo que me vejo parado, incapaz de me ajudar, a fraquejar, a ver coisas que não existem, a gritar de raiva contra ofensas que nunca foram feitas senão na minha imaginação; é neste tempo que a confusão corre em paralelo, é neste meu tempo em que costumava estar consciente eu, a bem dizer, deixei de estar.

A meu tempo tornei-me dependente de outra fonte que não eu mesmo. O equilíbrio daquilo que trago comigo depende de me reencontrar. Estou zangado por não saber o que poderei estar a sacrificar. Enraiveço-me com a dúvida. A raiva apenas me implora que pare de a alimentar, quer sexo, quer catarse, quer matar-se.

Aquilo que quero é difícil de dissipar à força. Quero não sentir a raiva e a inércia. Quero saber o que estou a ultrapassar.

O que quero e preciso é tão irrelevante… há uma única missão que venho a manter com todas as minhas forças, que é ser melhor, amar melhor, fazer bocados memoráveis de felicidade. Posso morrer amanhã que tudo isto já faço e sou melhor que ontem, de tantas formas. E faz sentido contigo.

Teu,

GJ

Porque já não escrevo

Há largos meses adquiri um exemplar de um popular livro para liricistas sobre técnicas  descritivas, composição musical, como escrever poemas com significado para música. Sofrendo eu de uma terrível necessidade de compor adequadamente, iniciei-me numa série de exercícios de escrita criativa, exercícios descritivos sobre objectos e o que me rodeava. Isto aborreceu-me e roubou-me interesse naquilo em que me rodeei. O cadafalso foi peculiar, não conseguia escrever com sentido sobre nada, se nada articulava opinião ou sentimento. A seriedade tornou-se, na sua verdadeira acepção, severa. A produção escrita era falsa, vazia, cheia de sentimentalismos que não soube exprimir, resultando em muitas mentiras. Logo logo este desencanto se espalhou para as outras formas de expressão pelas quais abandonei a escrita. A falta de verdade no meu forte e zangado fantasma de auto expressão soprou-me todo e qualquer ímpeto de acção da cabeça. Instalou-se um cansaço difícil de ultrapassar, em que o sono era mais uma ansiedade que deixou saudade do descanso alcançável aos meus queridos iguais comuns mortais.

Suponho que a todo e qualquer processo evolutivo e de mutação, em que o credo e o habitual são agitados e estragados, acresça uma ruptura, um questionamento sobre o que foi é e será aquilo em que acreditamos. Acreditava na força de expressão ao desbarato, tinha muitas opiniões, tudo era válido portfólio, uma dia mais tarde saberiam o que defendi e não calei. Não calo, todavia, ainda. Há muito sobre o qual não me quero pronunciar. Há muito sobre o qual passei a saber (embora algo desfeito pela impotência que me foi concedida por não ser confidente dos donos das mentiras do mundo em que vivemos mal e porcamente), que tudo o que me é alheio ou hipotético é ficção. Deixo a ficção para quem gosta e para outros núcleos de escrita sob pseudónimo. Traio-me de cada vez que escrevo sobre o que sei que não sei. Tudo o que escrevo contrariamente àquilo que aprendi em regime de transparência e observância, aprendendo sobre mim e sobre os outros, é completa traição e mundana fraqueza de espírito. Isto é o que é para mim. Se nada me inspira, nada escreverei. Inspira-me hoje dizer porque não escrevo. Não escrevo porque estou em construção, estou fechado para obras, em manutenção e não vejo como poderei voltar a escrever, senão como escreverei de outra forma.

Rodeio-me de menos coisas e de menos pessoas conhecidas e vejo os comuns cidadãos das grandes cidades, das isoladas serras e planícies, dos familiares que me vêem menos agora que sou adulto, até quando me têm à frente. Rodeio-me de coisas incompletas atrás de mim e de coisas que converti à existência e palavras que tenho para ler à minha frente. De alguma forma crescem-me na boca palavras diferentes das que leio, que ainda assim são só promessas, e pelas quais não vou queimar a mão nem o tempo, e muito menos gastar a pouca elasticidade do nervosismo que resiste ao tabaco e aos barbitúricos e à cefaleia crónica.

Quanto à poesia que também não escrevo, tudo o que inspirou a minha poesia foram os pedaços que não tinha de mim e vim a conhecer e a conquistar, as sequelas de maus amores e langor, coleccionados em inúmeros versos desrazoáveis. Não me falta amor. Acho que explica muita coisa. É um percurso diferente que tenho vindo a caminhar e a salivar oceanos de hipóteses. Mais uma vez, sobre o que é promessa… Sobre a poesia e o amor falo depois.

Vosso,

GJ