“De Profundis” de Oscar Wilde: breves passagens

“Estará a tua imaginação a despertar da longa letargia em que repousa? Já sabes o que é o Ódio. Começarás a compreender o que é o Amor, e qual é a natureza do Amor?”

“Julgo que o que eles amam não é a Arte

Que quebra o cristal do coração de um poeta

Aqueles olhos pequenos e viciosos podem irritar-se ou deliciar-se.”

“A faculdade «por meio da qual e apenas por meio da qual somos capazes de compreender os outros nas suas relações reais ou ideais», tinha sido enfraquecida pelo teu estreito egoísmo, e a sua longa falta de uso tinha-a tornado indisponível”

“Dentro de nós o tempo não progride. Regressa. Parece circular à volta de um centro de dor.”

“Nunca, nem mesmo nos dias mais perfeitos do meu desenvolvimento como artista, teria eu sido capaz de ter palavras que se adequassem a um tão grande fardo, ou que se movessem com suficiente majestade musical no meio do púrpuro espectáculo da minha incomunicável mágoa.”

“As folhas de louro morrem quando são apanhadas por mãos idosas. Só a juventude tem o direito de coroar um artista. Esse é o verdadeiro privilégio da juventude, se a juventude o conhecer.”

“Não há nenhuma coisa viva no mundo do pensamento ou do movimento em relação à qual a Dor não vibre em pulsação terrível, ainda que extraordinária.”

“Onde há Dor, o chão é sagrado. Um dia compreenderás o que isto significa. Não saberás nada da vida enquanto não o compreenderes.”

“O primeiro volume de poemas que, na Primavera da sua virilidade, um jovem lança para o mundo, devia ser como uma flor na Primavera, como o espinho branco no prado em Magdalen, ou como os malmequeres nos campos de Cumnor. Não deve pesar sobre ele o peso de uma tragédia terrível e revoltante, de um escândalo terrível e revoltante.”

“Há um tacto no amor e um tacto na literatura – tu não foste sensível a qualquer deles.”

“A cegueira pode ser levada tão longe que se torne grotesca, e uma natureza pouco imaginativa, se não se fizer alguma coisa para a despertar, ficará petrificada numa absoluta insensibilidade, de tal modo que, enquanto o corpo pode comer, beber, e ter os seus prazeres, a alma, de que é casa, pode, como a alma de Branca d’Oria em Dante, estar absolutamente morta.”

“Tratei a Arte como a realidade suprema, e a vida como um mero modo de ficção; despertei a imaginação do meu século de tal maneira que ela criou mitos e lendas à minha roda; resumi todos os sistemas numa frase, e toda a existência num epigrama”

“O que o paradoxo era para mim na esfera da paixão, tornou-se para mim a perversidade na esfera da paixão”

“Estou mais individualista do que alguma vez fui. Nada me parece ter o mais pequeno valor, excepto aquilo que retiramos de dentro de nós. A minha natureza procura um novo modo de auto-realização”

“Quando penso acerca da religião, sinto que gostaria de fundar uma ordem para aqueles que não são capazes de crer; poder-se-ia chamar a Confraternidade dos Sem Pai, onde, num altar, no qual não ardesse qualquer lamparina, um sacerdote, em cujo coração não habitasse  a paz, pudesse celebrar com um pão amaldiçoado e um cálice vazio de vinho”

“A Verdade na Arte não é uma correspondência entre a ideia essencial e a existência acidental (…) tal como não é o poço de água prateada existente no vale que mostra a Lua à Lua e Narciso a Narciso”

“Fracasso, desgraça, pobreza, dor, desespero, sofrimento, lágrimas mesmo, as palavras entrecortadas que provêm dos lábios da mágoa”

contemplar o espectáculo da vida com as emoções adequadas, que é aquilo que Wordsworth define como verdadeira finalidade do poeta”

“Quando entramos em contacto com a alma, isso torna-nos mais simples como crianças, como Cristo disse que devíamos ser.”

“Quanto ao Altruísmo, ninguém melhor do que ele sabia que que é a vocação e não a volição que nos determina, e que não podemos tirar uvas de espinhos nem figos de cactos”

“Mas, embora Cristo não tenha dito aos homens, Vivei pelos outros, afirmou que não havia diferença entre as vidas dos outros e a nossa vida”

“Todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia. Pois todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia. Pois todas as obras de arte são a conversão de uma ideia numa imagem”

“não tinha influência sobre ti para conseguir que não me perturbasses, como se deve fazer a um artista”

“detestava que olhasses para mim como uma pessoa útil, modo como nenhum artista deseja ser visto ou tratado; sendo os artistas, tal como a própria arte, inúteis por essência”

“Quanto a ti, só me resta dizer uma última coisa. Não tenhas medo do passado. Se as pessoas te disserem que é irrevogável, não acredites nelas”

Onde outros, diz Blake, nada mais vêem do que a Madrugada a aparecer sobre o monte, eu vejo os filhos de Deus gritarem de alegria

 

in De Profundis, Oscar Wilde.

GJ

 

 

Domingo: vizinhança revista

Já vou a tarde e a más horas, as prioridades revezam-se a massacrar-me e as novidades do mundo apressam-se a passar despercebidas… mas eu não tiro os olhos de cima.

Esta semana revi alguns hábitos meus, incluindo o de ser mandão e exigente, lembrando o dia em que obriguei o meu pai a fazer mais uma chave de casa, para que pudesse voltar da escola sem ter de esperar por ninguém. Tinha eu cinco anos, farto dos outros miúdos e a querer paz e sossego. Isto tem alguma coisa de perturbador, mas defendo-me com a sensatez e presença de espírito de saber o que queria e o que era melhor para mim. Nem todas as crianças teriam esta auto-determinação.

Passada a confissão escusada, confiro agora o que me chamou à atenção e alegrou, esta semana. Aqui vai:

1º Quero falar-vos do Almeida Garcez: The Guilty Preacher Man! Que nome!
Apresenta-se, em inglês: Self-taught artist whose main focus is illustrating social issues. Available for collaborations.
Visitem a página, viajem na imaginação fluída, nos ácidos dos desenhos quase kitsh, nos separadores das antigas e novas ilustrações, vejam os pedaços da viajem fotográfica deste artista pela europa, os tesouros que trouxe.

Almeida Garcez: The Guilty Preacher Man!

2º Sou leitor ávido e assíduo de uma jovem indiana londrina e das short-stories que publica de surpresa, cuja escrita treinada, de grande poder descritivo e linguagem proper, lhe conferem lugar cativo no meu já muito calendarizado tempo virtual, guardando tempo para ler os extensos textos, sem parar.

Barely Here Nor There

 

3º Quero ainda mencionar um blog/site brasileiro, do qual tomei conhecimento através de Lourdes Rodrigues, que é o Oficina de Criação Literária Clarice Lispector. Promove-se o auto-conhecimento através da escrita! Apoio esta causa, a da auto-expressão e a do auto-conhecimento.

 

4º O Biblioklept mantém-me entretido, diariamente. Dizem, sobre o site suis generis:

Biblioklept was founded in AD 2006 by Edwin Turner. Reviews, rants, and riffs on books (and things that aren’t books). Interviews with authors, artists, filmmakers, publishers. Biblioklept posts short stories, poems, essays, and excerpts from many authors (mostly in the public domain, but sometimes not). Biblioklept also posts pretty pictures (and pictures that aren’t so pretty, perhaps). Paintings of readers and books. Film clips, full films, stuff like that.

 

5º Voltar a estudar foi um passo importante e, tendo isso em conta, vou antecipando alguns dos passos, para me preparar. Tenho estudado formas de ilustração, formatos de publicação, grelhas, tipografia, planeamento estratégico de um projecto editorial, e agora chego à infografia. O que é? Anna Vital; Information Designer .

6º Tenho lido alguns blogs de mulheres que são filhas, esposas e mães, que homenageiam as mães que tiveram, lembrando-as e partilhando as histórias e adversidades da idade madura. Este é um deles, e o que mais gosto: Those Were the Days
7º Para quem também escreve em inglês, encontrei estas ferramentas online para revisão de textos, erros ortográficos: Grammarly, e para feedback sobre textos: Autocrit – nem preciso dizer o quão entusiasmado fiquei.

8º Em último lugar, a Marvel disponibilizou bd’s para ler online. Destaco títulos como: Iron Man in Remote Possibilities; Captain America featuring Road Force in Endgame; Avengers #1 e ainda Thor: God of Thunder #1.

BD’s digitais Marvel gratuitas

 

 

GJ

Picture prompt: from picture to word #2

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I fear so much being afraid, I fear I’ll defy myself touching this fear to know what it is, and since they all grow from fear itself, nothingness, inexistence and inertia take hold of my brains, arms and legs, pressing my heart to stop beating. I fear being unable. I fear I’m able. I’m afraid to start. Ugh, what a sook. I’m afraid of what fossets I’m about to open. I fear the end. I’m afraid I’ll flee and give up. I fear being mediocre. I fear I’ll fail and betray what I’ve weaved into dreams, because nothing do natural should make me feel trapped. In order to break free, only doing seems to be the answer – and I do – I do it relentlessly whe  fear strikes hard, stomping loud. I stop at nothing and it still haunts me. Am I driven by fear? I move faster away from it.

Inclusively, breaking out in the beginning of the healing process, when I see myself as a newborn project into a new bubble, like a bent river to another riverbend. All the while I run fast from fear by overcompensating on work thus breaking out from mediocrity’s mental confinement.

Mediocrity is a trap I often ignored and fell into, getting stuck in a rutt I would  exhaust myself trying to climb out of, much like a quicksand, overhelmed with confusion, soaked and heavy, losing hope, burying myself further down.

 

GJ

Caligrafia para um caso perdido

A minha letra normal sempre foi ilegível, feia e rude. Quando me meti a aprender caligrafia não sabia o quão difícil seria adaptar-me. Já passei pelo batarde, dei-me mal com Copperplate e estou agora a aprender Spencerian.

Com a prática lá fui aprendendo a desenhar letras, ao invés de escrever sem levantar a caneta, ainda que a minha mão pesada quase parta o aparo, estragando folhas e tinta como se não houvesse amanhã.

De momento, o site IAMPEF é a melhor fonte de informação para calígrafos, por isso vou lá buscar o que preciso, incluindo aulas e vídeos.

Para aprender o estilo Spencerian, tive de me habituar primeiro a manusear o aparo, aprender o ângulo da escrita e as ordens ascendentes e descendentes do desenho.

Por agora só faço asneira, mas vou mostrando a evolução deste estudo.

 

 

GJ

Quem é a Carla Alexandra?

O comboio está estranhamente vazio e não se compõe, mesmo faltando apenas dois minutos para sair da gare. Chegámos mais cedo, já vamos cansados e tarde para pensar em jantar, mas a conversa flui com entusiasmo, depois das trivialidades faladas em segredo, para a aberta discussão sobre restauração de capas em pele, para enfado  de quem ao lado livremente se fez sentar.

Interrompendo a efusiva troca de histórias sórdidas que iniciámos a propósito do mau atendimento da Sacolinha do Chiado, vinha a caminhar desde o fundo da carruagem um sujeito que a par e passo lembrava um espectáculo stomp, pés pesados sob o chão oco, andar desengonçado, oscilando gravemente para esquerda e para a direita, seguido de um homem estarrecido e sisudo, e berrava ao telemóvel palavras como mano ou tájagozá comigo, um festival bacoco de um garanhão que suspeitava ter sido enganado, mas não tinha bem a certeza, porque, afinal, como ficámos a saber, ele sabe o que come. Parámos de falar, tu talvez para perceberes o que se passava, não fosse um arrastão, eu porque estava de frente para o gajo embrutecido que vinha protegido do frio por uma espécie de hooded-scarf, ansioso por saber quem era afinal a Carla Alexandra de quem ele tanto falava. Num tom de macho encornado perguntava autoritariamente ao amigo do outro lado da chamada quem era a Carla Alexandra; era uma das velhas feias de ontem à noite no Europa? era o outro cabrão a pregar-lhe uma partida? Quem é afinal esta Carla Alexandra? Han? Quem é? – bufava de exaltação, não estava a controlar o jogo e eu acho que ele nunca jogou ao quem é quem. É provável que tenha engatado alguma espertalhona que lhe quis trocar as voltas, já que ele dá a cana toda de simplório bruto com manha, mas sem estofo para uma alma mais vivida; ou que o outro o esteja, de facto, a enganar, fazendo-se passar pela tal Carla Alexandra, para o humilhar, à boa moda do macho alfa dos pobres coitados, e não prefiro esta hipótese.

Quem será esta tal Carla Alexandra e o que terá dito ao pobre palerma para o deixar tão desconcertado? Aposto que sabe o que dizer para ter o que quer, aposto que é a mais reservada das feias que estavam no Europa, a que passou despercebida e guardou o número dela em vez do da amiga do telemóvel dele, quando teve de a levar, ébria, pelos braços, e que pela curta madrugada restante fantasiou tanto com o burgesso que não perdeu tempo nem maneiras, lembrando-se das artimanhas femininas da juventude que atraiam os homens e entesavam as tetas.

Começou pelo mistério e pelo nome, ele é o miúdo agarrado ao briquedo, ela o brinquedo novo, ele aproxima-se, desconfiado, ela espera, ele hesita, ela espera, ele procura por ela, ela espera; e nisto faz-se noite, chegamos à nossa paragem sem saber quem raio afinal é esta Carla Alexandra.

GJ

Nem a propósito

Daily Prompt: Quote Me

O prompt de hoje sugere-me escolher uma citação e comentá-la. Nem a propósito, abandonei ontem o “De Profundis” de Wilde num parágrafo que cita Goethe, que me remete para o momento em que a li pela primeira vez:

Aquele que nunca comeu o seu pão em solidão,
Aquele que nunca passou as horas da noite
A chorar e esperando a manhã,
Não vos conhece, ó Poderes Celestes.

É engraçado reviver leituras, dentro de leituras, a prática é muito comum, escritores que citam outros escritores, e Goethe não era estranho a Wilde. A humildade trazida pelo sofrimento é o tema da citação, bem como o tema do momento da narrativa de Wilde. Aquele que sofre vê o belo e o divino, vê claramente que de mais não precisa do que essa lucidez, alimento e abrigo.

Tenho tido a oportunidade de trocar impressões com autores, pessoas das letras, que também se cruzaram com alguns dos rabiscos que para aqui andam, e concordamos que todo o tempo é necessário e não há horas do dia suficientes para concretizar o que do mundo acumulamos, nós, quem muito sente; concordamos mais ainda com Wilde, quando diz The only people I would care to be with now are artists and people who have suffered: those who know what beauty is, and those who know what sorrow is: nobody else interests me, quando o mundo exterior se torna muito exigente da nossa atenção.

 

GJ