(re)leituras – “The Waste Land”de T.S.Eliot

Here is no water but only rock
Rock and no water and the sandy road
The road winding above among the mountains
Which are mountains of rock without water
If there were water we should stop and drink
Amongst the rock one cannot stop or think
Sweat is dry and feet are in the sand
If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand nor lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses

If there were water

And no rock

If there were rock

And also water

And water

A spring

A pool among the rock

If there were the sound of water only

Not the cicada

And dry grass singing

But sound of water over a rock

Where the hermit thrush sings in the pine trees

Drip drop drip drop drop drop drop


But there is no water

 

(excerto do capítulo “What the Thunder Said”)

O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei de dar a minha última aula pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, pelo vinho, ali bem servido. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e o livro de poemas desfez a outra.

Já chega!, dizia eu a molhar o bico no segundo copo, nunca mais ninguém me aponta o dedo por chegar atrasado, eu que aqui estou à uma hora à espera deste cabrão.

Fecho os olhos a beber, abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se fez névoa ao encontrar os bêbedos. Chegou e pediu desculpa sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodei a ouvir. Não somos amantes, não obstante uma ou outra tentativa passada. O vinho chama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho o seu nome, exactamente seis vezes, parando quando à hora do fecho pela noite a correr não veio.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas a questão e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que ouvi um bem ou um vai-se andando para introduzir a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro, nas suas palavras agora a recordar o passado mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar, sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas nas tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono proporcionado pelo vinho amoroso que tão doce me deixou, em cima da mesa dançávamos juntos aquela ágil troca de pés que amolgou o pinho da mesa. Caí, perdi, carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio. Olhava pela janela do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ

let me out of my mind

Let me trip, let the colours bring back the thrill, let me fly, let me dive, let me be super human, vanish from here to there, start all delayed human things from scratch to finish, let me float bare above your heads and rain down on you, let me wear a different skin, let me be purple, white polka dots, neon like or pitch-black, let me touch the sun and melt it for good, let my eyes shine, let my body glow, let me out of my mind to remind myself nothing existing matters.

GJ

I needed to vent, write a condensed paragraph with all the information, instead of a long structured, skillful text…

A presunção da autobriografia

Au Lecteur

C’est ici un livre de bonne foi, lecteur. Il t’avertit, dés l’entrée, que je ne m’y suis proposé aucune fin, que domestique et privée. Je n’y ai eu nulle considération de ton service, ni de ma gloire. Mes forces ne sont pas capables d’un tel dessein. Je l’ai voué à la commodité particulière de mes parents et amis : à ce que m’ayant perdu (ce qu’ils ont à faire bientôt) ils y puissent retrouver aucuns traits de mes conditions et humeurs, et que par ce moyen ils nourrissent, plus altiére et plus vive, la connaissance qu’ils ont eue de moi. Si c’eût été pour rechercher la faveur du monde, je me fusse mieux paré et me présenterais en une marche étudiée. Je veux qu’on m’y voie en ma façon simple, naturelle et ordinaire, sans contention et artifice : car c’est moi que je peins. Mes défauts s’y liront au vif, et ma forme naïve, autant que la révérence publique me l’a permis. Que si j’eusse été entre ces nations qu’on dit vivre encore sous la douce liberté des premières lois de nature, je t’assure que je m’y fusse très volontiers peint tout entier, et tout nu. Ainsi, lecteur, je suis moi-même la matière de mon livre : ce n’est pas raison que tu emploies ton loisir en un sujet si frivole et si vain. Adieu donc ; de Montaigne, ce premier de mars mil cinq cent quatre vingts.

Montaigne

Montaigne assim enceta a introdução de “Les Essais”, cujo conteúdo é ele mesmo, onde se quer mostrar na forma mais verdadeira. Dirige-se aos amigos, sobretudo, aos familiares com qualquer violência, um pouco de rancor, em advertências e justificações, como um animal selvagem amedrontado e indefeso, encurralado… ou será antes um homem prestes a cumprir a vontade de ser mais transparente sem fazer dos leitores reféns de quaisquer dúvidas que a autobiografia, nos seus momentos mais obscuros, pudesse levantar? Ele mostra-se, não sem antes avisar que o fará intencionalmente.

Este é cá dos meus, um livro aberto com intuito de o ser, contando apenas o suficiente para não ser demasiado. A resposta à provocação do título: quão cheios serão os tomates daquele que se atreve a escrever, publicar e endereçar uma autobiografia para achar que alguém se importa? – não é por acaso que se dirige aos amigos e família: aqueles que nos ensinam que, por muito bem que conheçamos alguém, nunca conhecemos ninguém verdadeiramente. Ele vai dar esse gosto ao clã dele, quer o amem ou amem menos do que ele, ao que já sabem o suficiente para querer saber o resto.

Publicaria uma autobiografia? Nem eu quero saber…

GJ

De a) a B) pela zebra

A forma como encaro o decorrer dos desafios e desaires de todos os meus dias pode-se equiparar ao simples acto de atravessar a estrada.

O hábito propõe uma preparação de largos anos, em que antes de me dirigir algures e me cruzar com as gentes e as coisas que desconheço e com as quais coexisto, todos os gestos, todos os actos, me avivam a memória de como chegar de a) a b), cada passa ecoa no corredor para a rua num rufar arrastado avenida fora, que me permite avançar.

Se o caminho está desimpedido, avanço.

Se o meu ritmo se combina com os que comigo se cruzam, avanço, jamais parando.

Se não há travessia, avanço, a meu próprio risco.

Se vindos de várias frontes, os perigos, seguidos, apressados, sigo sem que me vejam, sem interferir, para prosseguir, porque apenas posso avançar.

GJ