O LIVRO DAS IMAGENS, Rilke

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios…

A Canção do Suicida

Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.

Recordação

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.           

Rainer Maria Rilke, in “O Livro das Imagens”
Tradução de Maria João Costa Pereira

Entre leituras, alguns pensamentos

Tenho encontrado muita informação, quer escrita quer audiovisual acerca do beat generation, beatnicks, e em especial acerca de uma obra intitulada “On the road” de Jack Kerouac. Li, reli e debati esta obra nos tempos de faculdade e confesso que não me impressionou muito. Lê-se um pensamento anterior ao tempo da escrita, lêem-se credos a serem questionados, lê-se o envelhecimento de um homem do pequeno grupo que usou a palavra escrita para ser lida e romper o silêncio, a self expression era uma máxima inquebrável, um grupo de gajos que questionaram e possibilitaram uma geração… tudo para além da escrita foi um fenómeno aparte, ainda assim. É o tipo de livro para aquele ou aquela que está à procura de si mesmo.

 

GJ

Elogio dos repuxos – Ronald Carvalho

Hoje tenho em mim versos variados de Ronald Carvalho, em especial este “Elogio dos repuxos”, que lê assim:

Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando

em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz…

Canto da água que desce em poeira, leve e brando,

canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma — a cinza tem afagos…

Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,

passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,

(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos —

curvos leques a abrir e a fechar num adejo,

— mão vencida que vem de vãos incitamentos,

mão nervosa que vai mais cheia de desejo…

Volúpia de fugir — ser longe e ser distância,

e tornar logo ao cais e de novo partir!

Volúpia — desejar e não possuir, ser ânsia…

Repuxos a descer, repuxos a subir…

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,

Andar dentro de si perdido na memória…

(Caçadores ideais de mundos e de estrelas —

repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória…)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!

desespero, alegria — o lábio, a mão… e um beijo.

Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando —

Ir tocar a ilusão e morrer em desejo…

– Letter in November, Plath

Love, the world
Suddenly turns, turns color. The streetlight
Splits through the rat’s tail
Pods of the laburnum at nine in the morning.
It is the Arctic,

This little black
Circle, with its tawn silk grasses — babies hair.
There is a green in the air,
Soft, delectable.
It cushions me lovingly.
I am flushed and warm.
I think I may be enormous,
I am so stupidly happy,
My Wellingtons
Squelching and squelching through the beautiful red.

This is my property.
Two times a day
I pace it, sniffing
The barbarous holly with its viridian
Scallops, pure iron,

And the wall of the odd corpses.
I love them.
I love them like history.
The apples are golden,
Imagine it —

My seventy trees
Holding their gold-ruddy balls
In a thick gray death-soup,
Their million
Gold leaves metal and breathless.

O love, O celibate.
Nobody but me
Walks the waist high wet.
The irreplaceable
Golds bleed and deepen, the mouths of Thermopylae.