Elogio dos repuxos – Ronald Carvalho

Hoje tenho em mim versos variados de Ronald Carvalho, em especial este “Elogio dos repuxos”, que lê assim:

Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando

em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz…

Canto da água que desce em poeira, leve e brando,

canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma — a cinza tem afagos…

Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,

passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,

(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos —

curvos leques a abrir e a fechar num adejo,

— mão vencida que vem de vãos incitamentos,

mão nervosa que vai mais cheia de desejo…

Volúpia de fugir — ser longe e ser distância,

e tornar logo ao cais e de novo partir!

Volúpia — desejar e não possuir, ser ânsia…

Repuxos a descer, repuxos a subir…

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,

Andar dentro de si perdido na memória…

(Caçadores ideais de mundos e de estrelas —

repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória…)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!

desespero, alegria — o lábio, a mão… e um beijo.

Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando —

Ir tocar a ilusão e morrer em desejo…

Les Deux Bonnes Soeurs

baudelaire1
by GJ

 

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poète sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes soeurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs.

Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
Ô Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès? 

Charles Baudelaire

FAUSTO, Goethe -melhores momentos

“Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

(…)

Mudar de pele não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!
(…)
— Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
— Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
— E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!

(…)

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro nesta alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

(…)

Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,

eterno… sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(…)

MEFISTÓFELES

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena…
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

 

(…)

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde…? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

(…)

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

 

(…)

MARGARIDA (cantando em delírio)

Nasci de uma perdida.
Gerou-me um salteador.
A mãe roubou-me a vida.
O pai tragou-me em flor.
Saltou-me a irmã vizinha
do fresco seu coval;
mudou-me em avezinha
no agreste matagal;
fugi da terra feia;
vim ser feliz no ar;
aqui só me recreia
voar, voar, voar.