Verdadeira comunicação

Fui recentemente questionado acerca de um verso que escrevi há anos e tive de procurar em mim aquilo que quis dizer na altura. Após alguma reflexão encontrei a origem daquela reflexão incluída no seguinte terceto do alexandrino intitulado XII com data de 2013:

Prazeroso moderado amor em movimento.
Vejo na escuridão e ando livre no ovo.
Mero erro mortal, carnal contrafeito.

A alusão de liberdade associada à prisão do ovo é recebida com estranheza e com razão, agora vejo. Esta referência remonta a uma passagem de uma short-story que escrevi em verso:

Arrasto um brilho, um manto,
que me ilude, apenas eu embrulhado
nos vultos e ecos contínuos da névoa polida,
redoma, estufa urbana fresca onde impero,

Que por sua vez teve origem na reflexão de Chuang Tzu:

O objectivo das palavras é transmitir as ideias. Quando estas são apreendidas, as palavras são esquecidas. Onde poderei encontrar um homem que se esqueceu das palavras? Com ele é que gostaria de conversar (…). Todos se lembram só das palavras? Separam palavras e ideias? Como conversar sem palavras?
O que o pensador nos quer fazer pensar é muito simples: a palavra no quotidiano se torna veículo comunicativo, onde as palavras transitam vazias, como meras cascas de ovos que, se chocados, nada nascerá. A palavra poética é como o ovo cheio de vida pronto para ser chocado. Poeticamente, chocar é pensar.

O ovo é o pensamento antes da palavra dita.

Esta reflexão lembra-me uma passagem do filme Waking Life:

Creation seems to come out of imperfection. It seems to come out of a striving and a frustration. And this is where I think language came from. I mean, it came from our desire to transcend our isolation and have some sort of connection with one another. And it had to be easy when it was just simple survival. Like, you know, “water.” We came up with a sound for that. Or “Saber-toothed tiger right behind you.” We came up with a sound for that. But when it gets really interesting, I think, is when we use that same system of symbols to communicate all the abstract and intangible things that we’re experiencing. What is, like, frustration? Or what is anger or love? When I say “love,” the sound comes out of my mouth and it hits the other person’s ear, travels through this Byzantine conduit in their brain, you know, through their memories of love or lack of love, and they register what I’m saying and they say yes, they understand. But how do I know they understand? Because words are inert. They’re just symbols. They’re dead, you know? And so much of our experience is intangible. So much of what we perceive cannot be expressed. It’s unspeakable. And yet, you know, when we communicate with one another, and we feel that we’ve connected, and we think that we’re understood, I think we have a feeling of almost spiritual communion. And that feeling might be transient, but I think it’s what we live for.

(…)

And yet, you know, when we communicate with one another, and we feel that we’ve connected, and we think that we’re understood, I think we have a feeling of almost spiritual communion.

Estou certo de que um bom comunicador não usa apenas palavras. Eu aprendi e aplico todos os meios para comunicar, primeiro com intenção, empatia e depois palavras. A palavra confirma, oficializa. Comunico sem palavras aquilo que não se pode somente dizer pois a verbalização não honra a essência. Reservo para mim a introspecção, o tempo indefinido em que os olhos se fixam num ponto e a reflexão começa, em que me questiono e me respondo, pois conhecer-me é reconhecer-me no outro, podendo e tendo visto para lá das palavras a verdadeira mensagem dos meus interlocutores ao longo dos anos, para então revelar as minhas conclusões que serão sempre as minhas e não as de outro.

GJ

Still about the self portrait life

I’ve been enjoying my vacations for a week now and all I do is draw, paint, eat with great satisfaction, read, drink and watch cartoons.  My latest works are self portraits, probably because I don’t see my exterior as my interior, but this time I tried oil painting. So far I’m done with the object, shading and background, I’ll continue working on it…

Yours,

GJ