Les Deux Bonnes Soeurs

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by GJ

 

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poète sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes soeurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs.

Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
Ô Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès? 

Charles Baudelaire

O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei de dar a minha última aula pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, pelo vinho, ali bem servido. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e o livro de poemas desfez a outra.

Já chega!, dizia eu a molhar o bico no segundo copo, nunca mais ninguém me aponta o dedo por chegar atrasado, eu que aqui estou à uma hora à espera deste cabrão.

Fecho os olhos a beber, abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se fez névoa ao encontrar os bêbedos. Chegou e pediu desculpa sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodei a ouvir. Não somos amantes, não obstante uma ou outra tentativa passada. O vinho chama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho o seu nome, exactamente seis vezes, parando quando à hora do fecho pela noite a correr não veio.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas a questão e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que ouvi um bem ou um vai-se andando para introduzir a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro, nas suas palavras agora a recordar o passado mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar, sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas nas tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono proporcionado pelo vinho amoroso que tão doce me deixou, em cima da mesa dançávamos juntos aquela ágil troca de pés que amolgou o pinho da mesa. Caí, perdi, carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio. Olhava pela janela do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ

O Ideal – Galeria Animada Projecto #1

Este é o primeiro e muito básico produto de uma ideia que quer cruzar auto-retrato com poesia e movimento.

O ambiente é Baudelaire, a expressão é tensão e movimento (uma ou outra surgirá como factor dominante da foto)

 

L'IDÉAL
Ideias em movimento de Gonçalo Julião

 

L’Idéal

Ce ne seront jamais ces beautés de vignettes,
Produits avariés, nés d’un siècle vaurien,
Ces pieds à brodequins, ces doigts à castagnettes,
Qui sauront satisfaire un coeur comme le mien.

Je laisse à Gavarni, poète des chloroses,
Son troupeau gazouillant de beautés d’hôpital,
Car je ne puis trouver parmi ces pâles roses
Une fleur qui ressemble à mon rouge idéal.

Ce qu’il faut à ce coeur profond comme un abîme,
C’est vous, Lady Macbeth, âme puissante au crime,
Rêve d’Eschyle éclos au climat des autans;

Ou bien toi, grande Nuit, fille de Michel-Ange,
Qui tors paisiblement dans une pose étrange
Tes appas façonnés aux bouches des Titans!

— Charles Baudelaire

 

The Ideal

It will never be the beauties that vignettes show,
Those damaged products of a good-for-nothing age,
Their feet shod with high shoes, hands holding castanets,
Who can ever satisfy any heart like mine.

I leave to Gavarni, poet of chlorosis,
His prattling troop of consumptive beauties,
For I cannot find among those pale roses
A flower that is like my red ideal.

The real need of my heart, profound as an abyss,
Is you, Lady Macbeth, soul so potent in crime,
The dream of Aeschylus, born in the land of storms;

Or you, great Night, daughter of Michelangelo,
Who calmly contort, reclining in a strange pose
Your charms molded by the mouths of Titans!

— William Aggeler, The Flowers of Evil (Fresno, CA: Academy Library Guild, 1954)

(http://fleursdumal.org/poem/117)

GJ