O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei de dar a minha última aula pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, pelo vinho, ali bem servido. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e o livro de poemas desfez a outra.

Já chega!, dizia eu a molhar o bico no segundo copo, nunca mais ninguém me aponta o dedo por chegar atrasado, eu que aqui estou à uma hora à espera deste cabrão.

Fecho os olhos a beber, abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se fez névoa ao encontrar os bêbedos. Chegou e pediu desculpa sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodei a ouvir. Não somos amantes, não obstante uma ou outra tentativa passada. O vinho chama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho o seu nome, exactamente seis vezes, parando quando à hora do fecho pela noite a correr não veio.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas a questão e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que ouvi um bem ou um vai-se andando para introduzir a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro, nas suas palavras agora a recordar o passado mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar, sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas nas tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono proporcionado pelo vinho amoroso que tão doce me deixou, em cima da mesa dançávamos juntos aquela ágil troca de pés que amolgou o pinho da mesa. Caí, perdi, carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio. Olhava pela janela do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ