Caril de frango

Ainda estou a meio, o frango está selado, parti-o em pedaços demasiado grandes mas lá cozinhou, está muito bem limpo e temperado, só lhe falta ficar banhado no molho que deixa toda a gente cá de casa quase de cama a fazer a digestão… É verão e a família reuniu-se, eu decidi fazer o jantar. Nunca ninguém sabe o que quer para a refeição, como é costume, o meu pai quer alguma coisa saborosa para quebrar a dieta sensaborona e eu prometi fazer-lhe um caril caprichado. Deste ele não se vai queixar, já lhe sei os truques todos.

Na rua estão os irmãos da casa lá de baixo. Continuam ranhosos e raquíticos, lutam pelo mesmo sítio para brincar, pelo carrinho de bebé no qual ela passeia o boneco horroso a fingir que é mãe, carinho que ele quer usar para fingir que é o pai a andar de mota. Apesar de não gostar deles nem de onde eles vêm, a imaginação de ambos mostra-me o que realmente são: crianças com muito para dar, com um resto da inocência que a miséria lhes tirou. O pai chega e correm para ele, o miúdo salta para cima da mota e fica lá sozinho. Já nem pia, acho que perdeu a esperança de que algum dia o pai volte atrás. Ela conta-lhe o dia todo a trotear aos pés dele. Ouço a porta bater e passos nas escadas de novo para o pátio de cima. De volta ao cimento, levanta o boneco do chão, penteia-lhe o cabelo de plástico e atira-o para o carrinho, provavelmente partindo-lhe o pescoço. O fruto não cai longe da árvore… Ele deixou-se estar sentado na mota, arregaçou as mangas, fitando o horizonte. Agora tenta chegar aos pedais enquanto imita o som do motor a arrancar. Ffinalmente o motor a pega e ele grita “ADEEEEUS NÃO VOLTO PARA JANTAAR” e uma berraria pegada de idiotices… a irmã ignora-o sem esforço.

Que miúdo bravio, digo eu, lembrando-me de mim mesmo, às turras com o meu melhor amigo quando tinha a idade deste chavalo a fingir que foge de casa na mota do pai. Morava mesmo ao meu lado, os nossos pais eram amigos de longa data, ele era um ano mais velho que eu, o meu pai adorava-o. Era mais aventureiro, era o rapazola que seguia o pai para qualquer lado e qualquer desafio, o verdadeiro rapaz das ideias estúpidas que lidera os rapazes estúpidos. Eu era mesmo amigo dele mas não gostava lá muito de brincar com ele, só de algumas maneiras e tinha de ser como eu queria. Por norma brincávamos a algo relacionado com super heróis, descobertas de ossadas de dinossauros, Sherlock Holmes, Indiana Jones e lutas, revezando-nos sempre entre personagem principal, ajudante e inimigo perigoso que leva sempre a maior porrada. Lembro-me de um dia estarmos a fingir que éramos detectives e arqueólogos ao mesmo tempo e de termos descoberto uma pegada animal que era também a prova de um crime, mesmo debaixo de um arbusto, em frente à oficina do meu pai. Ele olhava-nos com algum desdém e aborrecimento, mas deixava-nos em paz e eu não lhe ligava nenhuma, espreitando de vez em quando se ele vinha ter comigo. O Bernardo foi buscá-lo correr e mostrou-lhe a pegada e explicou-lhe a história toda. Pareceu-me que o ouvia com entusiasmo, mas talvez estivesse só a fingir e a pensar que tinha de voltar para dentro, e não o interrompeu. Aquele gesto, pensei, se fosse comigo tinha levado um berro para ir chatear o Camões. O meu pai voltou para a oficina e o Bernardo comeu terra.

Deixou alguma comida no prato. Disse que estava bom embora tivesse falta de sal, a olhar para a televisão. O arroz ficou empapado.

 

GJ