Carta a Rainer Maria Rilke

ps

 

Mas a sua solidão será um pouso e um lar, mesmo no meio de relações muito hostis, e a partir dela encontrará os seus caminhos.

Therefore, dear Sir, love your solitude and try to sing out with the pain it causes you. For those who are near you are far away… and this shows that the space around you is beginning to grow vast… be happy about your growth, in which of course you can’t take anyone with you (…)

Rainer Maria Rilke

Meu caro,

Detesto saber que estás morto e que esta carta é um bala vazia, mas também apenas Kappus pareceu receber mais que um dos teus conselhos, quando não estavas a mudar de novo de casa ou a morrer de pobreza e doença. Essa é a verdade dos factos que contam, não que afecte a minha admiração por ti. A verdade é sombria para muitos, enquanto que para mim, a verdade não se figura preocupante. Em boa verdade, vivo bem de olhos abertos esta última, inclusive aquela que me incomoda, a de não poder nunca desviar a minha atenção de qualquer tarefa sem encetar um obsessivo interrogatório existencial e a medo tentar responder a todas as questões que ainda não desmistifiquei e que comprometem a minha vontade de existir, a de persistir na pueril demanda de tudo querer resolver dentro de mim. Esta é a verdade dos factos que já eu conheço bem e talvez a venha a aceitar. De entre todas as minhas questões, Rainer, preciso da tua perícia e honestidade para fazer face à minha solidão… Como era, de verdade, a tua solidão?

Nas tuas cartas prevalece a tua boa vontade, a tua eloquente vulnerabilidade e a tua mestria, mas não és sincero. Preciso que me digas o que acarreta afundar-me na minha já instalada solidão? Sou tão amante da solidão aqui como em qualquer lugar, pois então de que me vale partir e deixar o parco pão que me é dado? Porque me devo eu apartar do calor que eu, cão imprestável, conquistei nesta terra inóspita? A que limites foste tu capaz de te arrastar e à tua amada solidão? És capaz de me incentivar ainda agora ou dissuadir-me-ás? O que aprendeste contigo mesmo senão o que já sabias? Quanto espaço privatizaste entre ti e nós os outros? Quantifica-me a tua paz de espírito. Longe de escrutínios e ainda tendo de passar pelos fretes do dia-a-dia, digo-te que sinto mais a solidão como a tal cruz de que falas em carregar, solidão dentro da qual, acolhido, lambo das maleitas a minha cura, e por isso questiono incessantemente, até o frenesi acabar e então a vida fora de mim é apenas uma ilusão, quebrada por outra pergunta. O que muda? Qual a razão de ser? Porque devo alimentar esta alienação? A mim parece-me que tiveste mais ajudas do que alguém como eu tem direito a ter. A mim parece-me que és um charmoso e inspirador homem, bem como um grande aldrabão… e no entanto levantas uma boa questão: temos de enfrentar o nosso crescimento sozinhos. Pois, ninguém o fará da mesma forma e talvez a interferência atrofie o nosso desenvolvimento, talvez sacrifique um maior futuro, enquanto que em total solidão apenas nós podemos interferir e agir de acordo com o que é do nosso melhor interesse.

Quase que te consigo ouvir a reflectir sobre os meus devaneios cortantes, ainda sim, incapaz de ser genuíno. És um cobarde. Tenta, pelo menos, ajudar-me nesta última questão. Fico onde estou e ignoro o que poderia vir a ser das oportunidades de partir, contando comigo apenas como porto de abrigo e, segundo os teus ensinamentos, ser um homem mais completo e sábio, ou parto ignorando que até hoje aqui amadureci, contra todas as adversidades? Tiveste de responder a esta questão, no teu tempo de vida? Tanto quanto me é possível observar, terei de fazer à tua maneira e descobrir o que melhor me serve, pois não sei se não terás trilhado este mesmo caminho e optado por outro, pelo teu, aquele que te trouxe até mim. Foi coragem ou cobardia?

Não precisas de me responder para já, eu não te quero ver tão cedo.

Teu,

GJ