FAUSTO, Goethe -melhores momentos

“Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

(…)

Mudar de pele não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!
(…)
— Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
— Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
— E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!

(…)

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro nesta alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

(…)

Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,

eterno… sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(…)

MEFISTÓFELES

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena…
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

 

(…)

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde…? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

(…)

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

 

(…)

MARGARIDA (cantando em delírio)

Nasci de uma perdida.
Gerou-me um salteador.
A mãe roubou-me a vida.
O pai tragou-me em flor.
Saltou-me a irmã vizinha
do fresco seu coval;
mudou-me em avezinha
no agreste matagal;
fugi da terra feia;
vim ser feliz no ar;
aqui só me recreia
voar, voar, voar.

A presunção da autobriografia

Au Lecteur

C’est ici un livre de bonne foi, lecteur. Il t’avertit, dés l’entrée, que je ne m’y suis proposé aucune fin, que domestique et privée. Je n’y ai eu nulle considération de ton service, ni de ma gloire. Mes forces ne sont pas capables d’un tel dessein. Je l’ai voué à la commodité particulière de mes parents et amis : à ce que m’ayant perdu (ce qu’ils ont à faire bientôt) ils y puissent retrouver aucuns traits de mes conditions et humeurs, et que par ce moyen ils nourrissent, plus altiére et plus vive, la connaissance qu’ils ont eue de moi. Si c’eût été pour rechercher la faveur du monde, je me fusse mieux paré et me présenterais en une marche étudiée. Je veux qu’on m’y voie en ma façon simple, naturelle et ordinaire, sans contention et artifice : car c’est moi que je peins. Mes défauts s’y liront au vif, et ma forme naïve, autant que la révérence publique me l’a permis. Que si j’eusse été entre ces nations qu’on dit vivre encore sous la douce liberté des premières lois de nature, je t’assure que je m’y fusse très volontiers peint tout entier, et tout nu. Ainsi, lecteur, je suis moi-même la matière de mon livre : ce n’est pas raison que tu emploies ton loisir en un sujet si frivole et si vain. Adieu donc ; de Montaigne, ce premier de mars mil cinq cent quatre vingts.

Montaigne

Montaigne assim enceta a introdução de “Les Essais”, cujo conteúdo é ele mesmo, onde se quer mostrar na forma mais verdadeira. Dirige-se aos amigos, sobretudo, aos familiares com qualquer violência, um pouco de rancor, em advertências e justificações, como um animal selvagem amedrontado e indefeso, encurralado… ou será antes um homem prestes a cumprir a vontade de ser mais transparente sem fazer dos leitores reféns de quaisquer dúvidas que a autobiografia, nos seus momentos mais obscuros, pudesse levantar? Ele mostra-se, não sem antes avisar que o fará intencionalmente.

Este é cá dos meus, um livro aberto com intuito de o ser, contando apenas o suficiente para não ser demasiado. A resposta à provocação do título: quão cheios serão os tomates daquele que se atreve a escrever, publicar e endereçar uma autobiografia para achar que alguém se importa? – não é por acaso que se dirige aos amigos e família: aqueles que nos ensinam que, por muito bem que conheçamos alguém, nunca conhecemos ninguém verdadeiramente. Ele vai dar esse gosto ao clã dele, quer o amem ou amem menos do que ele, ao que já sabem o suficiente para querer saber o resto.

Publicaria uma autobiografia? Nem eu quero saber…

GJ

O míto de Sísifo, Camus- passagens

O absurdo e o suicídio

 

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio.

(…)

Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que a verdade pôs a sua vida em perigo (…) o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer-

(…)

Um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Começar a pensar é começar a ser consumido.

(…) As pessoas raramente se suicidam  (…) por reflexão.

(…) Matar-se, em certo sentido (e tal como no melodrama), é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a compreendemos. (…) O suicídio é apenas a confissão de que a existência «não vale a pena». Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos a fazer os gestos que a existência ordena, por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Morrer voluntariamente implica reconhecermos, mesmo instintivamente, o carácter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento.

(…)

Um mundo que se pode explicar, mesmo com as más razões, é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro.

(…)

Esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário, é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo.

(…) o suicídio é uma solução para o absurdo.

(…) este problema pode parecer ao mesmo tempo simples e insolúvel. Mas supõe-se erradamente que as perguntas simples determinam respostas que o não são menos e que a evidência implica a evidência.

(…) Na afeição de um homem pela vida há qualquer coisa de mais forte que todas as misérias do mundo. O julgamento do corpo, vale bem o do espírito e o corpo recua ante o aniquilamento. Ganhamos o hábito de viver, antes de adquirirmos o de pensar.

(…) A esquiva mortal (…) é a esperança. Esperança noutra vida que é necessário «merecer», ou batota dos que vivem não pela própria vida mas por qualquer grande ideia que a ultrapassa, a sublima, lhe dá um sentido e a atraiçoa.

(…) Não é em vão que se tem jogado com as palavras e fingido acreditar que recusar um sentido à vida conduz forçosamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na verdade, não há nenhuma relação entre estes dois juízos.

(…) A tenacidade e a clarividência são espectadores privilegiados nesse jogo desumano em que o absurdo, a esperança e a morte travam o seu diálogo.”

 

 

As paredes absurdas

 

(…) o absurdo será tanto maior quanto maior a distância entre os termos da minha comparação (…) o sentimento do absurdo (…) jorra da comparação entre um estado de facto e uma certa realidade, entre uma acção e o mundo que a ultrapassa. (…) Nasce do seu confronto.

(…)

A consequência imediata é ao mesmo tempo uma regra de método.

(…) semelhante luta presume a ausência total da esperança (que não tem nada a ver com desespero), a recusa contínua (que não devemos confundir com a renúncia) e a insatisfação consciente (que não podemos assimilar à inquietação juvenil) (…) O absurdo só tem sentido na medida em que não consentimos nele.

(…) o homem é sempre a presa das suas verdades. Uma vez reconhecidas, não pode libertar-se delas. É preciso pagar esse preço. Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. O homem sem esperança e consciente disso já não pertence ao futuro (…) Mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador.

(…) partindo do absurdo sobre os escombros da razão, num universo fechado e limitado ao humano, divinizam o que os esmaga e acham razões para esperar naquilo que os despoja.

 

O Suicídio Filosófico

 

O sentimento do absurdo não deve confundir-se com a noção do absurdo.

Viver sob este céu asfixiante ordena que fujamos ou que fiquemos. Trata-se de saber como se foge, no primeiro caso, e por que se fica, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que podemos dedicar às conclusões da filosofia existencial.

 

(…) presume a ausência total da esperança (que não tem nada a ver com o desespero), a recusa contínua (que não devemos confundir com renúncia) e a instisfação consciente (que não podemos assimilar à inquietação juvenil).

 

(…) o homem é sempre a presa das suas verdades. Uma vez reconhecidas, não pode libertar-se delas. É preciso pagar esse preço. Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. O homem sem esperança e consciente disso já não pertence ao futuro (…) Mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador.

 

(…) a aceitação do absurdo é contemporânea do próprio absurdo. Constatá-lo é aceitar e todo o esforço lógico do seu pensamento consiste em pô-lo a claro para ele libertar ao mesmo tempo a esperança imensa que ele arrasta consigo.

 

O pensamento de um homem é antes de tudo a sua nostalgia.

Assim como a razão soube acalmar a melancolia plotiniana, também dá à angústia modernas os meios de se acalmar nos cenários familiares do eterno. O espírito absurdo tem menos sorte. Para ele,  o mundo não é nem tão racional nem irracional a esse ponto. É desrazoável e só isso.

 

A liberdade absurda

 

Posso negar tudo dessa parte de mim que vive de nostalgias incertas, salvo esse desejo de unidade, esse apetite de resolver, essa exigência de clareza e de coesão. Posso refutar tudo neste mundo que me rodeia, me choca ou arrebata, excepto este caos, este acaso-rei e esta equivalência divina que nasce da anarquia.

 

Vamos, pelo contrário, sustentar a aposta dilacerante e maravilhosa do absurdo? Façamos um último esforço a esse respeito e tiremos todas as nossas consequências. O corpo, a ternura, a criação, a acção, a nobreza humana, retomarão então o seu lugar neste mundo insensato. O homem nele encontrará enfim o vinho do absurdo e o pão da indiferença de que a sua grandeza se alimenta.

 

O homem absurdo tem de esgotar tudo e esgotar-se.

 

Não me interessa saber se o homem é livre. Só posso sentir a minha própria liberdade.

 

É por isso que me posso perder na exaltação ou na simples definição de uma noção que me escapa e perde o seu sentido a partir do momento em que ultrapassa o quadro da minha experiência individual. Não posso compreender o que pode ser uma liberdade que me seria dada por um ser superior.

 

Pensar no amanhã, fixar um objectivo, ter preferências, tudo isto supõe a crença na liberdade, mesmo que às vezes as pessoas se certifiquem de que não a experimentaram.

 

Se me persuado de que esta vida não tem outra face que não seja a do absurdo, se sinto que todo o seu equilíbrio depende dessa perpétua oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade onde ela se debate, se admito que a minha liberdade não tem sentido a não ser em relação ao seu destino limitado, então devo dizer que o que conta não é viver melhor mas viver mais.

 

O Homem Absurdo

 

O que é, com efeito, o homem absurdo? Aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno. Não que a nostalgia lhe seja estranha. Mar prefere-lhe a sua coragem e o seu raciocínio. A primeira ensina-o a viver sem apelo e a bastar-se com aquilo que tem, o segundo instrui-o acerca dos seus limites.

 

Não se trata aqui de dissertar sobre a moral. Já vi muitas pessoas agirem mal com muita moral e todos os dias constato que a honestidade não precisa de regras.

 

«Tudo é permitido», exclama Ivan Karamazov.

A certeza de um Deus que daria o seu sentido à vida ultrapassa muito em atractivos o poder impune de fazer o mal. A escolha não seria difícil. Mas não há escolha e começa então a amargura. O absurdo não liberta, amarra. Não autoriza todos os actos. Esse «tudo é permitido» não significa que coisa alguma seja proibida. O absurdo dá somente a sua equivalência às consequências desses actos.

 

Um espírito penetrado de absurdo julga tão-só que essas consequências devem ser consideradas com serenidade.

 

O único pensamento que não é enganador é, portanto, um pensamento estéril. No mundo absurdo, o valor de uma noção ou de uma vida mede-se pela sua infecundidade.

 

O Donjuanismo

 

Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida.

Porque seria necessário amar raramente para amar muito?

(…) os tristes têm duas razões para o ser: ignoram ou esperam. Don Juan sabe e não espera.

E é bem isso o génio: a inteligência conhece as suas fronteiras.

 

Esta vida satisfá-lo, nada é pior do que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança dão-se mal neste universo onde a bondade cede o lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a convulsão à coragem solitária. E todos dizem: «Era um fraco, um idealista ou um santo».

 

Ele é um sedutor vulgar. Com uma pequena diferença, a de ser consciente. Por isso é que ele é absurdo.

 

Mas do amor só conheço essa miniatura de desejo, de ternura e de inteligência que se liga a determinado ser.

 

A comédia

 

«O espectáculo, diz Hamlet, eis a armadilha onde apanharei a consciência do rei» (…) É preciso agarrá-la em pleno voo, nesse momento inapreciável em que ela lança um olhar fugitivo sobre si própria.

 

A eternidade não é um jogo. Um espírito suficientemente insensato para lhe preferir uma comédia, perdeu a salvação. Entre «em toda a parte» e «sempre», não há compromisso. Daí que esse mester tão depreciado possa dar lugar a um conflito espiritual desmedido. «O que importa, diz Nietzsche, não é a vida eterna, é a eterna vivacidade».

 

Digo-vo-lo, amanhã sereis mobilizados. Isso é uma libertação, tanto para vós como para mim. O indivíduo não pode nada e, no entanto, pode tudo. Nessa maravilhosa disponibilidade compreende-se por que razão eu o exalto e o esmago ao mesmo tempo. É o mundo que o tritura e sou eu que o liberto. Forneço-lhe todos os seus direitos.

 

Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim. Se quiser alguma coisa, tem de ser nesta vida.

Estar privado de esperança, não é desesperar. As chamas da terra valem bem os perfumes celestes. Nem eu nem ninguém podemos aqui julgá-los.

 

A Criação Absurda

 

Filosofia e Romance

 

Há também uma felicidade metafísica em sustentar o absurdo do mundo. A conquista ou o jogo, o amor inumerável, a revolta absurda, são homenagens que o homem rende à sua dignidade num campo onde está antecipadamente vencido.

 

A busca pueril do esquecimento, o chamamento da satisfação são agora sem eco. Mas a tensão constante mantém o homem em face do mundo, o delírio ordenado que o leva a tudo acolher, deixam-lhe outra febre. Nesse universo, a obra é então a única possibilidade de manter a consciência e fixar-lhe as aventuras. Criar é viver duas vezes.

 

A criação sem amanhã

 

Trabalhar e criar «para nada», esculpir na argila, saber que a nossa criação não tem futuro, ver a nossa obra destruída num dia, sendo consciente de que, profundamente, tal não tem mais importância do que construír para séculos e séculos, eis a difícil sageza que o pensamento absurdo autoriza. Levar por diante essas duas tarefas, negar por um lado e exaltar por outro, é o caminho que se abre ao criador absurdo. Ele dar dar ao vazio as suas cores.

Não a fábula divina que diverte e cega, mas o rosto, o gesto e o drama terrestres em que se resumem uma difícil sageza e um pensamento sem amanhã.

 

O Mito de Sísifo

 

Já todos compreenderam que Sísifo é o herói absurdo.

Se este mito é trágico, é porque o herói é consciente.

 

Quando as imagens da terra se apegam demais à lembrança, quando o chamamento de felicidade se torna demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado de mais para se poder carregar. São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas.

 

A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. «Acho que tudo está bem«, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem.

 

Não há sol nem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz que sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. (…) Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte.

 

É preciso imaginar Sísifo feliz.

 

“De Profundis” de Oscar Wilde: breves passagens

“Estará a tua imaginação a despertar da longa letargia em que repousa? Já sabes o que é o Ódio. Começarás a compreender o que é o Amor, e qual é a natureza do Amor?”

“Julgo que o que eles amam não é a Arte

Que quebra o cristal do coração de um poeta

Aqueles olhos pequenos e viciosos podem irritar-se ou deliciar-se.”

“A faculdade «por meio da qual e apenas por meio da qual somos capazes de compreender os outros nas suas relações reais ou ideais», tinha sido enfraquecida pelo teu estreito egoísmo, e a sua longa falta de uso tinha-a tornado indisponível”

“Dentro de nós o tempo não progride. Regressa. Parece circular à volta de um centro de dor.”

“Nunca, nem mesmo nos dias mais perfeitos do meu desenvolvimento como artista, teria eu sido capaz de ter palavras que se adequassem a um tão grande fardo, ou que se movessem com suficiente majestade musical no meio do púrpuro espectáculo da minha incomunicável mágoa.”

“As folhas de louro morrem quando são apanhadas por mãos idosas. Só a juventude tem o direito de coroar um artista. Esse é o verdadeiro privilégio da juventude, se a juventude o conhecer.”

“Não há nenhuma coisa viva no mundo do pensamento ou do movimento em relação à qual a Dor não vibre em pulsação terrível, ainda que extraordinária.”

“Onde há Dor, o chão é sagrado. Um dia compreenderás o que isto significa. Não saberás nada da vida enquanto não o compreenderes.”

“O primeiro volume de poemas que, na Primavera da sua virilidade, um jovem lança para o mundo, devia ser como uma flor na Primavera, como o espinho branco no prado em Magdalen, ou como os malmequeres nos campos de Cumnor. Não deve pesar sobre ele o peso de uma tragédia terrível e revoltante, de um escândalo terrível e revoltante.”

“Há um tacto no amor e um tacto na literatura – tu não foste sensível a qualquer deles.”

“A cegueira pode ser levada tão longe que se torne grotesca, e uma natureza pouco imaginativa, se não se fizer alguma coisa para a despertar, ficará petrificada numa absoluta insensibilidade, de tal modo que, enquanto o corpo pode comer, beber, e ter os seus prazeres, a alma, de que é casa, pode, como a alma de Branca d’Oria em Dante, estar absolutamente morta.”

“Tratei a Arte como a realidade suprema, e a vida como um mero modo de ficção; despertei a imaginação do meu século de tal maneira que ela criou mitos e lendas à minha roda; resumi todos os sistemas numa frase, e toda a existência num epigrama”

“O que o paradoxo era para mim na esfera da paixão, tornou-se para mim a perversidade na esfera da paixão”

“Estou mais individualista do que alguma vez fui. Nada me parece ter o mais pequeno valor, excepto aquilo que retiramos de dentro de nós. A minha natureza procura um novo modo de auto-realização”

“Quando penso acerca da religião, sinto que gostaria de fundar uma ordem para aqueles que não são capazes de crer; poder-se-ia chamar a Confraternidade dos Sem Pai, onde, num altar, no qual não ardesse qualquer lamparina, um sacerdote, em cujo coração não habitasse  a paz, pudesse celebrar com um pão amaldiçoado e um cálice vazio de vinho”

“A Verdade na Arte não é uma correspondência entre a ideia essencial e a existência acidental (…) tal como não é o poço de água prateada existente no vale que mostra a Lua à Lua e Narciso a Narciso”

“Fracasso, desgraça, pobreza, dor, desespero, sofrimento, lágrimas mesmo, as palavras entrecortadas que provêm dos lábios da mágoa”

contemplar o espectáculo da vida com as emoções adequadas, que é aquilo que Wordsworth define como verdadeira finalidade do poeta”

“Quando entramos em contacto com a alma, isso torna-nos mais simples como crianças, como Cristo disse que devíamos ser.”

“Quanto ao Altruísmo, ninguém melhor do que ele sabia que que é a vocação e não a volição que nos determina, e que não podemos tirar uvas de espinhos nem figos de cactos”

“Mas, embora Cristo não tenha dito aos homens, Vivei pelos outros, afirmou que não havia diferença entre as vidas dos outros e a nossa vida”

“Todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia. Pois todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia. Pois todas as obras de arte são a conversão de uma ideia numa imagem”

“não tinha influência sobre ti para conseguir que não me perturbasses, como se deve fazer a um artista”

“detestava que olhasses para mim como uma pessoa útil, modo como nenhum artista deseja ser visto ou tratado; sendo os artistas, tal como a própria arte, inúteis por essência”

“Quanto a ti, só me resta dizer uma última coisa. Não tenhas medo do passado. Se as pessoas te disserem que é irrevogável, não acredites nelas”

Onde outros, diz Blake, nada mais vêem do que a Madrugada a aparecer sobre o monte, eu vejo os filhos de Deus gritarem de alegria

 

in De Profundis, Oscar Wilde.

GJ

 

 

Nem a propósito

Daily Prompt: Quote Me

O prompt de hoje sugere-me escolher uma citação e comentá-la. Nem a propósito, abandonei ontem o “De Profundis” de Wilde num parágrafo que cita Goethe, que me remete para o momento em que a li pela primeira vez:

Aquele que nunca comeu o seu pão em solidão,
Aquele que nunca passou as horas da noite
A chorar e esperando a manhã,
Não vos conhece, ó Poderes Celestes.

É engraçado reviver leituras, dentro de leituras, a prática é muito comum, escritores que citam outros escritores, e Goethe não era estranho a Wilde. A humildade trazida pelo sofrimento é o tema da citação, bem como o tema do momento da narrativa de Wilde. Aquele que sofre vê o belo e o divino, vê claramente que de mais não precisa do que essa lucidez, alimento e abrigo.

Tenho tido a oportunidade de trocar impressões com autores, pessoas das letras, que também se cruzaram com alguns dos rabiscos que para aqui andam, e concordamos que todo o tempo é necessário e não há horas do dia suficientes para concretizar o que do mundo acumulamos, nós, quem muito sente; concordamos mais ainda com Wilde, quando diz The only people I would care to be with now are artists and people who have suffered: those who know what beauty is, and those who know what sorrow is: nobody else interests me, quando o mundo exterior se torna muito exigente da nossa atenção.

 

GJ