Acta da 2ª Reunião PGM – Dualidade, Unidade / Twoness, Oneness

Um cheiro adocicado mas apimentado, entrecortado pela brisa que passa ocasionalmente. Hoje há um contraste de cores imenso, que nem os fumos dos automóveis corrompem. Músicas que passam com os carros, vozes de velhas e de novas aqui ao lado, e a teimosa brisa, que além de levar cheiros, leva folhas.

Ruído, vozes, maquinaria e pombos na calçada. Nada abre o apetite, excepto a fumaça que levantam os pés dos crentes na piedosa lufada fresca. Parados na sombra do meio-dia mordemos a vontade, enquanto que a estrada leva os demais a derrapar colinas fora, fervendo e atiçando a ansiedade.

Qual é o sentido de determinar com exactidão o cheiro que passeia envergonhadamente por aqui? O certo é que fica registado na panóplia de ideias dispersas que caem devagarinho no papiro improvisado. É agridoce, como o dia de hoje. Se desse uma cor a este cheiro, pintava-o de azul, verde e ocre, das luzes desta manhã.

Mesquinhices assobiam no ar como setas mal esgalhadas.  Dos tantos que caminham, poucos são caminhantes. Todos vão e voltam, escassos são os trazem fome no olhar. Que fazem eles, quando a algures chegam? Encontram-se e somam-se em conclusões? Aqueles que não salivam com a oportunidade, convalescem, sem receber sal.

Se lhe tirasse uma fotografia a sépia, estaríamos nos anos 70 dos soldados regressados. Cores de nómadas, ciganos e desterrados, o roxo de Morte a cada dia, os laivos do amanhecer numa nova casa. Tendas de ouro dos pobres, orgulho vadio e libertino. Unhas de nobre e tez mediterrânica, fustigada pelo ar quente, banhada em azeite, sua carne rosada, batida, amaciada.  Mas, se fosse possível fotografar a essência, estaríamos na aura embriagada dos escritores solitários dos anos 20.

Pára para fazer um cigarro, enquanto me controlo para não acender um. Ulula frenética, à mercê das correntes de ar mescladas de cheiros ora doces, ora almiscarados, efervescendo com risos soluçados.  À minha frente, a outra folha é preenchida a uma velocidade estonteante, e não ouso interromper quem a fomenta. A mão na mesa paira roubando a névoa nebulosa do sonho que antecede a alvorada, capturada e segura como jóias de Vénus.  A postura transmite-me que corre contra o tempo, para agarrar firmemente a teia de ideias que vão brotando, desordenadas.

Está a ficar uma merda. Olha, vou escrever está a ficar uma merda.

Notou, acordando do transe da escrita, que nenhum de nós deu pelo barulho cinzento da estrada, que se estende diante de nós.

Se há muito não dava pelo barulho, depois de este ser notado não consigo pensar noutra coisa. Estas galinhas não me deixam concentrar, estão a deixar-me deveras propensa à irritação. O que se fala na confusão da alma é mais claro e humano.

Ir, partir, chegar. Ir onde? Resido onde a minha alma se estende.

Que fazem eles, quando lá chegam? Encontram-se e somam-se em conclusões?

Estou aqui, faço sentido, como estas amoreiras à beira da estrada.

 

 

 

                                                     Pequenos Grandes Malditos, Sociedade de Autores Livres TM.