A velha idade

Atrasado como de costume, no comboio atrasado do costume, assomo-me à porta para sair a correr. O caminho de ferro circula quase à mesma altura do passeio, naquele bocado antes de chegar a Benfica, vê-se perfeitamente o trânsito, a calçada, as pessoas, as casas, a antiga morada de um bom e velho amigo de infância, o sol alto do meio-dia bate nas janelas, e um velhote vestido a rigor no seu sobretudo pousa as mãos no gradeamento da varanda, parecendo uma gravura de alto contraste, vejo cada relevo daquela figura estampada contra a superfície nédia.

Esta imagem pareceu arrastar-se pelos breves segundos de passagem, tendo tempo de ver e olhar com atenção para o velho que ali se detinha, grande e destacado. Por nenhuma razão em específico acenei com a mão um adeus, talvez por compreender que estava ali para ser visto, da mesma maneira que estava colado à porta para sair. Pergunto-me porque estaria ele ali, tão simples e visível, enquanto todas as outras janelas brilham com o mesmo branco, fechadas. Devia estar feliz com algo, talvez estivesse a aquecer os ossos, ou até mesmo a esperar alguém, exasperado pela demora.

GJ

Quem é a Carla Alexandra?

O comboio está estranhamente vazio e não se compõe, mesmo faltando apenas dois minutos para sair da gare. Chegámos mais cedo, já vamos cansados e tarde para pensar em jantar, mas a conversa flui com entusiasmo, depois das trivialidades faladas em segredo, para a aberta discussão sobre restauração de capas em pele, para enfado  de quem ao lado livremente se fez sentar.

Interrompendo a efusiva troca de histórias sórdidas que iniciámos a propósito do mau atendimento da Sacolinha do Chiado, vinha a caminhar desde o fundo da carruagem um sujeito que a par e passo lembrava um espectáculo stomp, pés pesados sob o chão oco, andar desengonçado, oscilando gravemente para esquerda e para a direita, seguido de um homem estarrecido e sisudo, e berrava ao telemóvel palavras como mano ou tájagozá comigo, um festival bacoco de um garanhão que suspeitava ter sido enganado, mas não tinha bem a certeza, porque, afinal, como ficámos a saber, ele sabe o que come. Parámos de falar, tu talvez para perceberes o que se passava, não fosse um arrastão, eu porque estava de frente para o gajo embrutecido que vinha protegido do frio por uma espécie de hooded-scarf, ansioso por saber quem era afinal a Carla Alexandra de quem ele tanto falava. Num tom de macho encornado perguntava autoritariamente ao amigo do outro lado da chamada quem era a Carla Alexandra; era uma das velhas feias de ontem à noite no Europa? era o outro cabrão a pregar-lhe uma partida? Quem é afinal esta Carla Alexandra? Han? Quem é? – bufava de exaltação, não estava a controlar o jogo e eu acho que ele nunca jogou ao quem é quem. É provável que tenha engatado alguma espertalhona que lhe quis trocar as voltas, já que ele dá a cana toda de simplório bruto com manha, mas sem estofo para uma alma mais vivida; ou que o outro o esteja, de facto, a enganar, fazendo-se passar pela tal Carla Alexandra, para o humilhar, à boa moda do macho alfa dos pobres coitados, e não prefiro esta hipótese.

Quem será esta tal Carla Alexandra e o que terá dito ao pobre palerma para o deixar tão desconcertado? Aposto que sabe o que dizer para ter o que quer, aposto que é a mais reservada das feias que estavam no Europa, a que passou despercebida e guardou o número dela em vez do da amiga do telemóvel dele, quando teve de a levar, ébria, pelos braços, e que pela curta madrugada restante fantasiou tanto com o burgesso que não perdeu tempo nem maneiras, lembrando-se das artimanhas femininas da juventude que atraiam os homens e entesavam as tetas.

Começou pelo mistério e pelo nome, ele é o miúdo agarrado ao briquedo, ela o brinquedo novo, ele aproxima-se, desconfiado, ela espera, ele hesita, ela espera, ele procura por ela, ela espera; e nisto faz-se noite, chegamos à nossa paragem sem saber quem raio afinal é esta Carla Alexandra.

GJ

Isso nunca aconteceria comigo…

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Da carruagem mais despovoada do comboio em hora de ponta sai na paragem de Benfica uma única pessoa, uma rapariga do mais comum possível, com um certo ar de gerbo. Aconteceu nessa mesma tarde de S. Martinho (sim, sim eu lembro-me) um reencontro testemunhado pela classe trabalhadora aborrecida e pelo proletariado indisposto, momento confuso em que esta rapariga fica petrificada durante os suspensos segundos, na plataforma. (Detesto-a) Do fechar dramático das portas, ao início da corrida débil, do indistinto grito gemido ao abraço que a levantou no ar aos rodopios, as nossas atenções centraram-se nestes dois macacos do destino, vendo-os deslizar para direita e desaparecer do ecrã das janelas. O olhar voltou para dentro, exalaram-se bafos de tédio pela carruagem, olhavam para o chão, para o tecto, para as mãos, para os seios, para as jóias, para os engenhos de exclusão nas dadas formas e feitios; eu perdi o meu olhar na janela, um tanto dividido com o que acabara de ver. (eu também, foi bizarro) Alguém olhava para mim, sentia o ardor daquele olhar na têmpora, vindo da porta: eu era a janela daquele olhar. (era eu, óbvio) Saí do comboio ainda a tentar decidir-me sobre o que tinha visto… O tempo que parou, o ar preso nos pulmões, o olhar que se cruzou de surpresa, as memórias que desenrolaram dos sorrisos e lágrimas, a corrida que os podia ter partido em quatro, o abraço genérico dos chick-flicks e o beijo já visto à distância, o tempo que parou onde a chegada é a partida. (desta vez ficas?) Não é agridoce?

Conta-me esta história enquanto esperamos o 738 no hospital. Ainda se faz sentir o verão de S.Martinho, encandeados pela luz no alcatrão e nos edifícios, enfraquecidos pelo calor e pela fome. Ouço a memória a funcionar, estou lá a viver a mesma viagem, a ver as mesmas coisas. É a única forma de estar presente. Estes dias, quando não estamos apressados ou a dizer adeus, estamos a contar histórias. Eu convenço-me de que se me esforçar o suficiente a minha memória pode ser enganada, adulterada, por isso imagino o que ouço e vivo essas visões. A visão mostra o que nos rodeia, mas através dela não distinguimos o real do sonho. Antes de percepcionarmos o que é real ou representação, a visão é um canal de informação não filtrada. Não me incomoda tirar partido de um conhecimento tão útil. Vejo o sorriso ao acabar de contar a pequena memória que partilhamos, a raridade do sucedido que só vendo, só estando lá, se poderia acreditar. Isso torna-o relevante, a intensidade da história encaixa na prosódia do seu discurso dignificado.

O que é que eu acho?

  • Isso nunca aconteceria comigo…

Com um desviar de olhos em alerta, prossegue, tímido, obrigado pela emoção a querer saber o porquê, açoitado pelo ego que levanta a guarda.

  • Ai sim?! E pode-se saber porquê?
  • Porque – tremo a voz – porque – rio – … porque, é o que… Porque tenho uma grande resistência a emoções fortes, é só por isso, mais nada. Não ia desatar a correr, talvez sorrisse e acenasse, ah olá e tal- aparece o autocarro – mas não tem nada a ver contigo, eu às vezes desligo a parte humana que responde a humanos…
  • Está bem – desvia o olhar para o autocarro, a expressão reflecte preocupação nas sombras de todas as rugas visíveis – até logo, depois diz qualquer coisa.
  • Sim, até logo.

Sim, até logo, meu amor é o meu pensamento, e o que se fica por completar é ouvido até ao fim do outro lado. Acreditar é vital, acredito.

O que dizer, se desisto de mim como me conheci e obedeço ao ridículo lugar comum daquele que sofre consciente da própria demência? Sentei-me no banco de jardim ordinário, das traseiras ordinárias de um prédio ordinário de Telheiras. Andei uns bons quilómetros em jejum, já parei o meu tempo dedicado a outrém, tendo iniciado o cronómetro a contar o tempo das perguntas inexoráveis e do pensamento frio, esse que me traz da amargura que me humedeceu os olhos, ao fumar o mais ordinário e ineficaz cigarro mal enrolado, para me ocupar de vez da resposta óbvia, persistente, oportunista, essa da inexistência. Esforço-me tanto por fingir para mim mesmo que nada finjo, que tudo se mistura no mesmo sonho.

O que acho? Acho que uma parte de mim quer correr para ti, outra poderia correr para longe de ti, outra poderia ser real e lembrar-se do que nos afastou.

GJ