Ao Domingo de manhã conheço a vizinhança

Um bom hábito meu de fim-de-semana é estar a par do que se passa, incluindo na blogosfera. Passo algum tempo a ler e a procurar nos blogs que sigo algo que me desperte curiosidade. Hoje, no meio de muitos posts, revisitei o Mundo Complexo (http://mundoxelpmoc.blogspot.pt/) e sentei-me simulando quase uma conversa com uma boa amiga, sobre aquilo que tem aprendido e sobre que maravilhas ou adversidades este mundo complexo lhe traz. Leio aquilo que esta boa amiga vê, desde a neve ao céu cinzento; sinto o que ela sente, frustração, dificuldade, novos começos; observo que tece os versos em malhas diferentes das anteriores; acima de tudo leio-a mais conversadora, a querer tocar o real, dispersando-se em prosa.

Revejo a minha confusão na dela, em que, na preocupação, a razão se perde e as defesas tomam formas quiméricas, e passam-se hora na “extrema análise dos acontecimentos”.

Falo agora acerca de um post em específico que li e comentei acerca da forma clara da pergunta colocada, que exaltou o meu pensamento e me envergonhei por não me ter conseguido propor por escrito a mesma questão: Sinto-me confusa e certas vezes temo roçar a demência. Será só extrema análise dos acontecimentos? Ora aí está! Não consegui, em tantas frases que tenho rabiscado, sucintamente fazer esta pergunta! A repetida e exaustiva análise dos acontecimentos deturpa a verdadeira memória, já estende um lençol de ficção sobre a nossa percepção do real e do que nos rodeia… Eis o caso que alguém que vive quase exclusivamente dentro de si mesmo, ouvindo incessantemente a mesma pergunta, atirando-a de novo ao vazio que encontra, copiosamente até à exaustão.

Aproveitem e visitem o Mundo Complexo em:  http://mundoxelpmoc.blogspot.pt/

GJ

Isso nunca aconteceria comigo…

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Da carruagem mais despovoada do comboio em hora de ponta sai na paragem de Benfica uma única pessoa, uma rapariga do mais comum possível, com um certo ar de gerbo. Aconteceu nessa mesma tarde de S. Martinho (sim, sim eu lembro-me) um reencontro testemunhado pela classe trabalhadora aborrecida e pelo proletariado indisposto, momento confuso em que esta rapariga fica petrificada durante os suspensos segundos, na plataforma. (Detesto-a) Do fechar dramático das portas, ao início da corrida débil, do indistinto grito gemido ao abraço que a levantou no ar aos rodopios, as nossas atenções centraram-se nestes dois macacos do destino, vendo-os deslizar para direita e desaparecer do ecrã das janelas. O olhar voltou para dentro, exalaram-se bafos de tédio pela carruagem, olhavam para o chão, para o tecto, para as mãos, para os seios, para as jóias, para os engenhos de exclusão nas dadas formas e feitios; eu perdi o meu olhar na janela, um tanto dividido com o que acabara de ver. (eu também, foi bizarro) Alguém olhava para mim, sentia o ardor daquele olhar na têmpora, vindo da porta: eu era a janela daquele olhar. (era eu, óbvio) Saí do comboio ainda a tentar decidir-me sobre o que tinha visto… O tempo que parou, o ar preso nos pulmões, o olhar que se cruzou de surpresa, as memórias que desenrolaram dos sorrisos e lágrimas, a corrida que os podia ter partido em quatro, o abraço genérico dos chick-flicks e o beijo já visto à distância, o tempo que parou onde a chegada é a partida. (desta vez ficas?) Não é agridoce?

Conta-me esta história enquanto esperamos o 738 no hospital. Ainda se faz sentir o verão de S.Martinho, encandeados pela luz no alcatrão e nos edifícios, enfraquecidos pelo calor e pela fome. Ouço a memória a funcionar, estou lá a viver a mesma viagem, a ver as mesmas coisas. É a única forma de estar presente. Estes dias, quando não estamos apressados ou a dizer adeus, estamos a contar histórias. Eu convenço-me de que se me esforçar o suficiente a minha memória pode ser enganada, adulterada, por isso imagino o que ouço e vivo essas visões. A visão mostra o que nos rodeia, mas através dela não distinguimos o real do sonho. Antes de percepcionarmos o que é real ou representação, a visão é um canal de informação não filtrada. Não me incomoda tirar partido de um conhecimento tão útil. Vejo o sorriso ao acabar de contar a pequena memória que partilhamos, a raridade do sucedido que só vendo, só estando lá, se poderia acreditar. Isso torna-o relevante, a intensidade da história encaixa na prosódia do seu discurso dignificado.

O que é que eu acho?

  • Isso nunca aconteceria comigo…

Com um desviar de olhos em alerta, prossegue, tímido, obrigado pela emoção a querer saber o porquê, açoitado pelo ego que levanta a guarda.

  • Ai sim?! E pode-se saber porquê?
  • Porque – tremo a voz – porque – rio – … porque, é o que… Porque tenho uma grande resistência a emoções fortes, é só por isso, mais nada. Não ia desatar a correr, talvez sorrisse e acenasse, ah olá e tal- aparece o autocarro – mas não tem nada a ver contigo, eu às vezes desligo a parte humana que responde a humanos…
  • Está bem – desvia o olhar para o autocarro, a expressão reflecte preocupação nas sombras de todas as rugas visíveis – até logo, depois diz qualquer coisa.
  • Sim, até logo.

Sim, até logo, meu amor é o meu pensamento, e o que se fica por completar é ouvido até ao fim do outro lado. Acreditar é vital, acredito.

O que dizer, se desisto de mim como me conheci e obedeço ao ridículo lugar comum daquele que sofre consciente da própria demência? Sentei-me no banco de jardim ordinário, das traseiras ordinárias de um prédio ordinário de Telheiras. Andei uns bons quilómetros em jejum, já parei o meu tempo dedicado a outrém, tendo iniciado o cronómetro a contar o tempo das perguntas inexoráveis e do pensamento frio, esse que me traz da amargura que me humedeceu os olhos, ao fumar o mais ordinário e ineficaz cigarro mal enrolado, para me ocupar de vez da resposta óbvia, persistente, oportunista, essa da inexistência. Esforço-me tanto por fingir para mim mesmo que nada finjo, que tudo se mistura no mesmo sonho.

O que acho? Acho que uma parte de mim quer correr para ti, outra poderia correr para longe de ti, outra poderia ser real e lembrar-se do que nos afastou.

GJ

Restos

um e outro, pés

um, outro,

relembrar como funciona tudo

neste brinquedo estragado,

o meu corpo.

pé ante pé, coreografo

passos impróprios.

há desafios incertos,

não há espaço ou segurança

ou espaço seguro,

pondo um ante outro,

haja astúcia, prudência.

andámos, hesitaremos,

ainda saltamos rumo

à facilidade do esquecer.

gemidos indevidos memorandos irresolúveis.

segue então a parada rápida,

perplexo com facilidades suspeitas

de compassos binários.

deixo o que quiser,

arrasto o que trouxer.

uma dança de acrobacias

irreflectidas, passadas longas,

exuberantes demonstrações

de pouco alento.

um passo rodado, dançado

na crista quadriculada,

cedo alargada e engulo

o espaço, com minhas

dimensões monstruosas.

II

para dizer, num gesto,

que rasguei uma quadricula

para nela velejar ou navegar no carril

da exponêncial ébria meditação,

os candidos sons projectados no vidro baço

pelo meu traço bom, fiável,

ruga que estimo por sorrisos eternos.

um gesto

um beijar suave,

mas seguro.

III

em cercas mais altas

balança-me o silêncio.

aquilo abaixo do queixo

lá festeja em doces romarias,

feio e porco.

ser ou não um pouco do sono

prolongado, agora de contas finitas,

não me traz prejuízo.

tenho sono à noite, dançando os meus dias.

GJ