O menino que se desfez

Chegada a hora de dormir, fechar os olhos e espreitar Orion que flutuava no céu descoberto em frente à janela, Bernardo sentou-se na cama, cotovelos apoiados no pano de peito da janela, olhando o céu. Não desejava estar só, embora o quarto do orfanato fosse agora só dele, e pensava em todas as vezes que desejara que se fossem todos embora, para ser dono de uma divisão que o fizesse sentir-se perfilhado, no agora mais vazio orfanato. À custa da felicidade dos que se foram embora para uma casa, ficara sozinho com o céu nocturno, que trazia Orion de volta às copas das árvores, anunciando a chegada da Primavera.

– Tu é que és o meu colega de quarto? – perguntou-lhe um rapazinho à porta, taralhouco, esfregando os olhos com um mão, e segurando a ponta da camisa que lhe ficava demasiado grande, certamente emprestada pela irmã Dulce, depois do banho. Era novo, ali, mas não o vira chegar.

Apressou-se para fora do quarto minúsculo e gritou pela estúpida da freira que não teve o bom senso de o deitar numa outra cama, porém era tarde demais; viu a porta para a sala comum fechar-se e ouviu o som da chave a rodar o trinco. Se Maria e Diogo não podiam estar ali com ele, mais ninguém podia.

– Enquanto houver mais camas, não serei, não!

– Nããão – correu para dentro do quarto – Não faz mal, eu não faço barulho! – saltou para cima da antiga cama de Maria, ainda desfeita, onde dormira no dia anterior, ainda cheia de ranho na fronha da almofada – Tenho soninho e já fiz xixi, e olha – levantando a camisa, mostrando o corpo magro e desnudo de criança – não estou a usar fralda! Sinto-me confiante, hoje! Eu fico aqui, tu ficas aí! – atirou-lhe um sorriso tão traquina que Bernardo quase lhe sorriu de volta. Este piolho nem sabe que foi abandonado… – pensou Bernardo.

Sabes, eu às vezes acho que me vou desfazer debaixo dos lençóis, se não me acordarem para ir fazer xixi… Acordas-me? – perguntou-lhe.

Bernardo ficou especado a olhar para ele, um pouco confuso com aquela estranha confissão… Depois pensou que talvez já estivesse a sonhar, encolheu os ombros, não respondeu e voltou para a janela, acima da cama, e por lá ficou, até o frio o adormecer.

Acordou de um sonho, de memórias da irmã que o deixou no orfanato com a irmã Dulce e as outras velhas, num salto e de olhos muito abertos. Viu o chão de granito, azulado pela lua, olhou para dentro do quarto e procurou o rapaz novo. Ele pediu-lhe que o acordasse, mas estaria a falar a sério ou estaria mesmo só a sonhar? Destapou-o das mantas e lençóis, sentindo o toque húmido e fedorento dos tecidos, espantado, atirando-se para trás, incrédulo. Ele desaparecera! Apenas encontrou a camisa branca que lhe assentava como um saco de batatas mal atado, agora amarela e ensopada. Onde estaria aquele pirralho?! Ele mijou a cama da Maria!! Quando o encontrar encho-o de porrada, pensou Bernardo, ainda mudo. Procurou debaixo das camas e atrás dos cortinados, no corredor e nas casas-de-banho. Nem um pegada, nem um espirro de um corpo a tremer de frio, nem um choro de medo do escuro.

GJ