Quem é a Carla Alexandra?

O comboio está estranhamente vazio e não se compõe, mesmo faltando apenas dois minutos para sair da gare. Chegámos mais cedo, já vamos cansados e tarde para pensar em jantar, mas a conversa flui com entusiasmo, depois das trivialidades faladas em segredo, para a aberta discussão sobre restauração de capas em pele, para enfado  de quem ao lado livremente se fez sentar.

Interrompendo a efusiva troca de histórias sórdidas que iniciámos a propósito do mau atendimento da Sacolinha do Chiado, vinha a caminhar desde o fundo da carruagem um sujeito que a par e passo lembrava um espectáculo stomp, pés pesados sob o chão oco, andar desengonçado, oscilando gravemente para esquerda e para a direita, seguido de um homem estarrecido e sisudo, e berrava ao telemóvel palavras como mano ou tájagozá comigo, um festival bacoco de um garanhão que suspeitava ter sido enganado, mas não tinha bem a certeza, porque, afinal, como ficámos a saber, ele sabe o que come. Parámos de falar, tu talvez para perceberes o que se passava, não fosse um arrastão, eu porque estava de frente para o gajo embrutecido que vinha protegido do frio por uma espécie de hooded-scarf, ansioso por saber quem era afinal a Carla Alexandra de quem ele tanto falava. Num tom de macho encornado perguntava autoritariamente ao amigo do outro lado da chamada quem era a Carla Alexandra; era uma das velhas feias de ontem à noite no Europa? era o outro cabrão a pregar-lhe uma partida? Quem é afinal esta Carla Alexandra? Han? Quem é? – bufava de exaltação, não estava a controlar o jogo e eu acho que ele nunca jogou ao quem é quem. É provável que tenha engatado alguma espertalhona que lhe quis trocar as voltas, já que ele dá a cana toda de simplório bruto com manha, mas sem estofo para uma alma mais vivida; ou que o outro o esteja, de facto, a enganar, fazendo-se passar pela tal Carla Alexandra, para o humilhar, à boa moda do macho alfa dos pobres coitados, e não prefiro esta hipótese.

Quem será esta tal Carla Alexandra e o que terá dito ao pobre palerma para o deixar tão desconcertado? Aposto que sabe o que dizer para ter o que quer, aposto que é a mais reservada das feias que estavam no Europa, a que passou despercebida e guardou o número dela em vez do da amiga do telemóvel dele, quando teve de a levar, ébria, pelos braços, e que pela curta madrugada restante fantasiou tanto com o burgesso que não perdeu tempo nem maneiras, lembrando-se das artimanhas femininas da juventude que atraiam os homens e entesavam as tetas.

Começou pelo mistério e pelo nome, ele é o miúdo agarrado ao briquedo, ela o brinquedo novo, ele aproxima-se, desconfiado, ela espera, ele hesita, ela espera, ele procura por ela, ela espera; e nisto faz-se noite, chegamos à nossa paragem sem saber quem raio afinal é esta Carla Alexandra.

GJ

Conversas

Diálogos de coisas amorosas. Voltando a Julho.

Concordo mais contigo, agora, que amar é, de facto, um acto construtivo. Destrói para construir sucessivamente. É assim que aprendemos cumulativamente, mas é assim que se ama?

Acho que é bem isso, é obrigares-te a renovar os teus paradigmas a cada dia, e não só. É dar, destruir barreiras e cercar o lugar na tua memória onde vai repousar o teu amor, construir no outro o teu repouso, onde podes ser tu.

Com isso sugeres o vão e doente acto de amar ser uma guerra de conquista de terras? Um tango? Sabes que o tango era dançado por homens?  Despique hormonal de machos?

Surpreende-te assim tanto que a competição e conquista parta dos pares? Podes observar na natureza quão rudes permanecemos, podes comparar uma medição de forças entre alfas e uma dança de sensualidade, habilidade, atracção física cuja eficácia se revela no frémito do corpo.

O que é a sedução senão uma luta pela conquista?

Conquista de quê? De espaço? Para que serve essa conquista?

És um animal e, como tal, territorial, conquistador e dominador. Precisas de te expandir para seres maior, não cabes só em ti, o teu território é o legado, a tua conquista a tua força. Enquanto amas, afirmas-te.

São primitivas, as tuas razões. Explica-me, então, porque investiria alguém, nos tempos de hoje, em territórios obsoletos? É assim a aventura de amar um jogo de criança aborrecida, às escondidas, até ser encontrada? Pois a mim parece-me que amar é egoísmo. É tão especial que homens e mulheres por todo o mundo, ao través dos tempos,  desfalecem à espera de terem certeza do que sentem. A luta pereceu, embora sejamos terras por conquistar, sem conquistadores, porque poucos são os que nada têm a perder. São os absurdos.

Já ninguém se interrompe para amar, ninguém quer sair a perder.

O que perdes se nada tiveste?

Em termos reais, não há vencedores e vencidos. Há tempo consumido e o tempo tem memória nas palavras que disseste, nos gestos, na desdita, no começo, no fim e o quão bravo ou fraco foste. Amar é doentio, ser alguém no mundo e estar apaixonado é o sintoma, é o que escreve os romances e os versos de almas torturadas pela incompreensão do que é, realmente, amor. Ser alguém e amar são águas imiscíveis. Podes tu, mais do que uma verdadeira vez diluir-te, para afirmar que amas? O delíquio do teu ego no ar desta doença não acontece se não acontecer, não tens o poder de o fazer deliberadamente. Tem de ser causado, tem de reagir a outro agente.

Quantas vezes se perdeu de amores D.Juan?

D. Juan amou? Ou procurou no coração de tantas a admiração?

Amor eterno é mais um mito que passamos séculos a tentar comprovar, mais um tédio para juntar aos padrões impossíveis de manter. D. Juan amou várias vezes e, escavada a terra da raiz desse nascido amor, nada mais havia para ele, o entusiasmo, o desejo, a alegria da paixão jovial feliz e a adrenalina passageiras cessam.

Nunca se transformou num só.

Não queres insinuar um paralelismo com alquimia, espero?

Perde e morre prematuramente aquele que não vive nem sente ao limite. Amar é fundires a tua matéria única com outra matéria impossível. Só é amor por ser transcendente, por não o encontrares no comum, no que já existe, por desafiar todos os gritos de perigo e sobrevivência que disparam no teu corpo físico. Tem de se criar a si próprio.

GJ