Tridimensionalidade

A tridimensionalidade desta moldura

de noite iluminada por sons mecanicos

de âmbar e estrume em que os ramos

corcundas murcham em virilidade e verdura

ficou gravada no céu de Outono nublado de Inverno.

Veste-se, mutável, este canal

apunhalado na crosta urbana, intruso generoso,

de trapos que reconheço, agora, no temporal

de trocas e transfusões que filtram e soltam o fruto do caroço.

Reconheço a sombra do que foi

nas árvores do meu corpo

sobre quais paisagens exalo

a fumaça do frio inóspito,

sugando-lhe hoje o vício,

quando antes o destruí

numa antepassada estação ou porto.

Em matizes se incendeiam, da cor que lhes trago

das ordens e rotações que não comando

ao rubro dum vermelho em piruetas de desolação

nas madrugadas tardias manchadas de fim,

frustradas pelo bolor restante e verdejante

duma alma que volta a ser, salva,

despida,

como estão as raízes sinuosas e serpentes ramos

da sombra da moldura do ciclo.

Transplanto os seios de refúgio

em que nos espraiámos como parafusos

denunciando a pena capital do meu descontentamento

pelos desnutridos lençóis que pouco me cobrem

da boca árida do relento,

reverberando a espuma da corrente perene dos vivos,

traduzida, então, em prismas de férteis rebentos,

guias numa moldura do meu corpo carnívoro,

entr’estes pólos vivos invertidos,

ando desabrigado.

Vestido também de Morte

em novo ventre me verto,

repouso no coração.

GJ