Daniel e o inexplicável

 

 

O mar? O que achas que é?

Perguntou-me ele, irrompendo da confusão feita das perguntas ininterruptas da infância, o que era o mar. Já tínhamos ido à praia mas a praia era a praia e aquilo que sabia era exactamente o que era. A água era salgada e tinha medo das ondas. Aquela água era a da praia, mas onde estava o mar e o que era? Constantemente invadido pelo síndrome saudoso de ser um miúdo português, num país que ainda respira a identidade de alguém que se serve do mar para sustento, de alguém que espera do mar o alimento para a família, de alguém que ainda espera a benevolência do mar de cuspir de volta os homens que a bordo dos navios se fizeram, não percebia a atracção.

Não sabes, e também não te vou dizer. O que quero dizer é, se não sabes o que é o Mar, vais encontrá-lo em muitas viagens e vais admirá-lo à distância, vais senti-lo no corpo que vai crescer com a tua consciência, e a ideia de Mar ninguém te poderá jamais explicar. Pode ser para ti apenas o que é, poderá ser a extensão do infinito, e ainda as dicotomias entre a vida e a morte. Porque és um miúdo que gosta de perguntar mas que não permite aceitar um lugar comum sem entender com a visão que tens do mundo, és duro de roer, para muitos, és difícil. Porém, vais ver que a teu tempo quererás sentir tudo de uma vez, até te aborreceres e quereres ver além do que pensaste ser real. Questionar é natural para aqueles que se procuram, embora te venham a querer doutrinar nos aspectos ingénuos da infância, como se ser criança fosse uma doença incontornável, fantasiosa e passageira da razão. Eles estão errados. Crescer não é desistir da maravilha.

O que o mar molha é a costa, o areal, as rochas. Se o areal for entendido como o prelúdio de um encontro raro que, repetido, é todas as vezes um reencontro ainda mais raro, falamos de poesia. Se o areal for entendido com algo vulnerável, estático, inerte, somos hipócritas. Também o teu cabelo é soprado pelo vento, molhado pela chuva, a tua pele percorre o teu corpo. O areal macio ou rude, seja sob que formas te aparecer, são rochas batidas pelos nós desse mar que me perguntas, é um aprimoramento (bastante útil) de outra forma de vida. E não saímos nós do mar diferentes? Não percorre o areal o chão do mar? Não flui o nosso sangue ora a velocidades extremas e furiosas, ora a calmos compassos levianos que nos levam a flutuar no tempo?

Ninguém sabe o que é o mar para ti. Poderás pensar por ti mesmo quando lá voltarmos e, se não lhe fores indiferente, és uma parte dele. Quando te banhares; quando te afundares; quando te perderes de ti nele; quando te assustares com ele, vais-te sentir pequeno, e, nesses momentos te aperceberás que Mar é uma experiência.

Perdoa-me o infinito de explicações pouco ou nada plausíveis. Não te explicarei absolutamente nada.

Daniel, o que possas sentir no teu inexperiente e genuíno coração é resposta suficiente por agora. Que cresças acompanhado pela verdadeira felicidade da infância, inalterada pelo peso do conhecimento, e que te lembres de voltar a perguntar o que é para ti o Mar.

Esperarei a tua resposta.

GJ