Verbis, palavras, words

Antes que soubesse o quanto me afectavam e o quanto lia delas já as palavras eram mais poderosas que a minha capacidade de lidar com elas. Gostava de não saber o significado das palavras, gostava de não as ler tão bem. As palavras nomeiam o que se vê, nomeiam o que pensamos, nomeiam o que ouvimos, sinto inevitavelmente por palavras, sou inevitavelmente afectado por palavras. Pedem-me que me cale com palavras falsas de carinho, nomeiam a minha zanga com palavras de troça e censura, avisam-me com palavras descuidadas que não tenho importância e que o que pensava ser verdade não existe. Não há no mundo aquilo por que me esforcei nutrir. Nada a fazer senão permanecer e deixar o rumo imparável do mundo e do nosso tempo arrastar-me na sua corrente e simplesmente ser. Nada importa.

 

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GJ

Déjà Vu

“Aime- moi moins mais aime-moi longtemps”

Silver Screen

Keep it Simple

Mal consigo escolher entre os meus filmes favoritos, embora este me pareça de acordo com a presente época.

Chansons d’amour está longe de ser um musical lamechas, romântico, conformista ou generoso para com os personagens. É uma desgraça. Todos sofrem, as personagens são tão humanas que vemos as falhas de carácter todas, os diálogos são, à maneira francesa, impessoais e secos, ora contidos e poéticos, ora vulgares e despidos de metáforas, ligando dois personagens improváveis numa relação de grande vulnerabilidade, intimidade, persuasão e receio.

Aime- moi moins mais aime-moi longtemps

Confesso que me zango sempre com este pedido, pois não me é humanamente possível amar menos. O tempo é irrelevante, fora do meu controlo, embora a minha vontade seja derradeiramente mais persistente que o ele, que a oxidação. É um pedido tão egoísta, tão pouco apreciador. Ser carente, viciado em amor, e pedir menos do que lhe dão, do que pede, ao mesmo tempo que exige uma dosagem prolongada, enfurece-me; porém quem ama fá-lo-á, sempre. Eu apenas o faço com o furor de um terramoto e com a suavidade de um sopro, para que não assente nunca o pó.

 

GJ

 

 

Prompt: 10 minutos de escrita aleatória

Arrumei o meu caderno de non-fiction na gaveta das dívidas, das cartas e das avenças na noite em que pensar se tornou demasiado, elevava-se a minha fúria com o furor do pensamento e das memórias que guardava de há 3 meses até então leem-se apenas lamentos. A última entrada é de 15 de Janeiro, escrevo com o entusiasmo perigoso de alguém crispado pelo desespero, na queda da ignorância, em maiúsculas espaçadas, a flutuar pelas pequenas páginas amareladas, vincadas pela ponta da esferográfica verde; tantos lugares comuns gerados pela febre, pela esperança. Fui buscá-lo para me relembrar do ritual que comecei para, numa tentativa frustre, recapturar o meu fluxo de escrita; tentativa que logo abandonei ao reviver através deste canal que sintonizei a rotina de alguém assombrado pelos meus demónios joviais. Abandonei-o de imediato, apenas para voltar e justificar-me. Quão fácil é tornar umas páginas de carácter factual num diário desnecessário.

De volta ao furor do pensamento incentivado pela memória de um ritual ido e finado, o papel não se deu bem com a tinta que se esborratou pelos cortes traçados pelo aparo aguçado. Ainda gosto de escrever em papel, bem como ainda gosto de escrever com caneta de aparo e tinta. Temo não ter mão nem agilidade para a caligrafia, pois também me falta a faculdade de me preocupar com o rigor de algo que tenho de fazer antes que me esqueça. A minha memória é o que mais me falha, além da objectividade. Nada tenho feito por completo. Para mal esgalhado já basto eu e as minhas manias. Divago. Entre tanta rasura torna-se óbvia a minha impulsividade para editar a negatividade que me possa comprometer… Divago uma vez mais, o relógio aponta poucos segundos para o fim e o violino de Tchaikovsky geme de uma maneira insuportável, já…

GJ

Ready, Set, Done