FAUSTO, Goethe -melhores momentos

“Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

(…)

Mudar de pele não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!
(…)
— Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
— Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
— E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!

(…)

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro nesta alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

(…)

Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,

eterno… sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(…)

MEFISTÓFELES

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena…
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

 

(…)

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde…? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

(…)

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

 

(…)

MARGARIDA (cantando em delírio)

Nasci de uma perdida.
Gerou-me um salteador.
A mãe roubou-me a vida.
O pai tragou-me em flor.
Saltou-me a irmã vizinha
do fresco seu coval;
mudou-me em avezinha
no agreste matagal;
fugi da terra feia;
vim ser feliz no ar;
aqui só me recreia
voar, voar, voar.